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Mostrando postagens de junho, 2020

Simplesmente não.

Certa vez uma amiga me disse essa frase "O sim que eu digo para os outros é o não que eu digo para mim mesma." Eu sei que ela pode soar um tanto egoísta, talvez enfatizando que a gente só deva pensar em si próprios, mas ela traz uma reflexão importante sobre o poder do não. Será que eu consigo dizer não? Ou me sinto culpada? E com isso vou acumulando tarefas indesejadas ou que não dou conta, programas sociais que queria evitar, tratamentos que me são indesejados? Quantas vezes eu uso uma mentira social, para não precisar dizer um não genuíno, do tipo "desculpa, mas não". Será que eu temo uma reação negativa ao meu não? Na verdade, nosso medo de dizer não talvez esteja muito relacionado com o nosso próprio receio de receber um não. Percebo nas últimas gerações que a nossa dificuldade de lidar com a frustração vem se tornando cada vez mais acentuada. Queremos tudo não apenas do nosso jeito, como queremos imediatamente. Se mandamos uma mensagem esperamos uma re...

Solteira procura... paz.

É isso. Você chegou no fim da linha. Está com 35 anos e é solteira. Solteirona, diga-se de passagem, não solteirão. Não tem filhos, não tem marido. Tem um gato e uma cachorra. Nada mais lhe resta. Pode se atirar. Pode desistir. Até os algoritmos de suas máquinas já sabem disso (talvez leram pesquisa vinho + passagem para 1 + comida para gato = solteira). Eles lhe recomendam sites de encontros, além de infames vídeos sobre como conquistar seu homem. Suas amigas já não lhe convidam mais para festas de casamento. Agora já são os chás de fraldas, festa de 1 aninho, ou mais. Ah sim, e o tão importante chá de revelação, como esquecer. E você aí, solteira. Não seja por isso. A busca começa. Primeiro pelos amigos de amigas: casados, gays ou rapazes que ainda acham mais confortável viver com a mãe. Muito bem, próximo passo, baladas. Pois então... Você não faz o tipo balada. Está lá deslocada e todos percebem. Tenta fazer o papel da sedutora (sim! Você viu um dos vídeos: keep your voice l...

Bem-vindos à Hollywood!

Há algumas semanas assisti a uma série por recomendação de dois queridos amigos. É a série Hollywood, do Netflix. Já tinha visto sua chamada algumas vezes mas não me interessava porque achava que de fato era sobre a vida Hollywoodiana. O que eu não sabia é que se tratava sobre alguns outcasts (e aqui a expressão em inglês é precisíssima, porque realmente diz daqueles que estão fora do cast , do elenco), lê-se negros, gays, asiáticos, e afins, fizeram uma produção cinematográfica contra todas as probabilidades. E é em descrevendo a realidade de um Estados Unidos pós-II guerra que a série mostra outra realidade que mexeu comigo. Todo domingo, um dos caras do grande escalão da indústria fazia uma festa, principalmente com o intuito de que os gays pudessem ser eles mesmos livremente, sem correr o risco de serem presos por atentado à moral e aos bons costumes. Claro que eu sabia que isso acontece. Assim como sei que ainda hoje, toda vez que um casal gay troca algum tipo de afeto publi...

Tá contigo!

Outra noite tive um sonho que me fez muito bem. Particularmente nessa pandemia (e conversei com alguns amigos que me disseram o mesmo) tenho sonhado mais que o normal. Nesse sonho que tive, sonhei que chegava de viagem e ia direto na casa de uma tia muito querida, realmente um bom porto de afeto. Chegando lá, no terreno em que a casa deveria estar havia apenas uma obra acontecendo, e a estrutura de uma casa sendo construída, apenas com sua base pronta. Depois da frustração inicial, logo percebi que havia ido para o endereço errado e, quando dei por mim, estava em um apartamento amplo, com boa vista e rodeada pelas minhas primas e pelas minhas irmãs, todas em uma interação bastante próxima, como sempre tivemos. Gosto muito de interpretações (talvez por isso minha relação tão próxima com a literatura). Acredito que se o significado está no que se lê, ele está também e talvez mais em quem lê. É claro que em sonhos, bastante da interpretação vem de como nos sentimos, da sensação adv...

Este não é um texto

Dentre as tantas recomendações para se distrair na quarentena, adoro aquelas que, além de fazerem passar as horas, também me dão uma mexida. Foi o caso de Tempero Drag , recomendado por uma grande amiga e que, apesar do nome, não é sobre culinária. Basicamente são vídeos muito bem estruturados e com referências que me colocaram para pensar em assuntos que eu já de alguma forma me interessava. Um deles foi a questão do real e da representação do real (o tema do vídeo era ela falando que não, ela não era uma mulher e questões de gênero). Nesse vídeo, aludindo à obra A traição das imagens, do belga René Magritte, em que abaixo da imagem de um cachimbo lê-se "Ceci n’est pas une pipe" ("Isto não é um cachimbo") (nota mental, seria ótimo a foto de um presidente, qualquer um, aleatório, com a frase em francês "Ceci n’est pas une idiot") (nota mental 2, talvez fosse muito óbvio, apesar de engraçadinho) (nota mental 3, vocês não adoram parênteses?), a fabulo...

E tem limite...

E tem limite pro que a gente sente? E tem limite pro que a gente é? E tem limite? E tem limite para onde vamos? E tem limite o que comemos? E tem limite o que falamos? E tem limite? E tem limite para o agora? E tem limite para o preconceito? E tem limite para a burrice? E tem limite? E, por favor, tem limite?