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Mostrando postagens de julho, 2020

Curtimo-nos

Para quem me conhece um pouco mais sabe que sou daquele tipo de pessoa com alma velha. Isso provavelmente explique minha relação um tanto unilateral com a tecnologia (é apenas ela quem oferece, e eu pouco retribuo quase sem saber usar seus atributos). Dito isso, talvez a minha percepção desta crônica não lhe diga muito, ainda mais se você é alguém que nasceu no mundo da TV Globinho e não do Show da Xuxa, ou quem sabe da Vila Sésamo. Mas a mim, certamente foi fato de no mínimo curiosidade. Nos últimos anos, principalmente depois da última eleição presidencial, resolvi migrar do Facebook para o Instagram. Não desfiz minha conta, mas julguei que as fotos e menos linhas desta mídia social a tornariam um ambiente mais seguro a minha paz de espírito. E foi fato. Mas algo que ela também trouxe foi a oportunidade de seguir famosos que eu admirasse. E isso é algo novo para mim. Você se sente próximo deles, acompanhando seu dia-a-dia, vendo lives, estando quase no sofá da sua casa. E troux...

Gostoso como um abraço

Não sei se você já teve a oportunidade de cumprimentar algum estrangeiro que não fosse de origem latina. Certamente é uma situação culturalmente carregada, em que, o brasileiro abre os braços a espera de acolher o estrangeiro - mesmo que o esteja vendo pela primeira vez - enquanto este, estende uma mão firme que busca evitar mergulhar no abraço que lhe é oferecido. E nisso vão alguns segundos de negociação cultural, até que o cumprimento chegue num acordo. Claro que não podemos afirmar que todo brasileiro seja assim afetivo, mas, como um todo, essa é uma característica nossa. E o que dizer agora então, que não apenas não estamos cumprimentando desconhecidos, como nem mesmo nossos amigos? Encontramos alguém que gostamos, que naturalmente daríamos um abraço e não sabemos mais o que fazer. Quase chegamos a por as mãos no bolso, para ter certeza que ficarão lá e não cairão na tentação de envolver o outro. E fica como se fosse aquele vácuo, a estranheza de estar faltando algo. A força...

Das regras do jogo (da série "Solteira procura...paz")

Você não precisa de ninguém, é uma ótima companhia que gosta muito de si. Essa é a regra nº 1. Esse é um jogo de interesse e ficamos interessados no que não conhecemos e parece legal. Cada jogador terá a sua vez de jogar. Não pule a vez do companheiro. A ausência gera a falta, que pode levar ao interesse. Seja você mesma porque isso é cativante, mas cuide com o que só lhe diz respeito. Esse é apenas um jogo de interesse, não necessariamente é o início de um relacionamento que deve ser baseado em total sinceridade e afeto. O afeto é só o próximo passo, uma extensão do jogo, e tem que ser conquistado. Seu oponente também está jogando. Tenha isso em mente. Como qualquer jogo, depois que você acostuma com as regras fica fácil jogar. Você pode se divertir nele, principalmente se estiver distanciada e não vê-lo como algo pessoal. Não é com você, você é só mais um jogador (o resul...

Férias em casa, e aí?

Certamente o título dessa crônica é white people's problem (problema de pessoa branca). Tenho consciência de onde falo. Mulher, hetero, branca, classe social abonada. É claro que estou entre a pequena parcela da população que consegue viajar nas férias, que tem essa capacidade financeira. E nem me refiro a ir a Cancun. Falo de sair mesmo, ir visitar parentes, dar um passeio num lugar de natureza, dar uma arejada. Mas, como tudo neste ano, nossas possibilidades passaram a ser outras. Viajar em plena pandemia por certo é um risco. Um risco para si e um risco para os outros. Então, resta-nos o aconchego do lar - como já vem sendo desde março. E não é que não gostemos de nossas casas. Pelo contrário. Certamente somos gratos por tê-las e nos sentimos bem nelas. A questão é, será que conseguimos descansar com o computador ali, a disposição, e junto com ele talvez a cobrança de, "já que eu estou aqui mesmo, por que não adiantar alguma coisa?". Para quem trabalhou em home o...

Aja mas não agite-se

Outro dia ganhei um elogio. Fui chamada de ativa. Pode parecer banal, eu sei. E daí, que você se movimenta? Mas esse elogio mexeu lá comigo criança, com a caçula que não conseguia acompanhar as brincadeiras, com a leitora que não saia de sua cadeira, com a jogadora que não tinha habilidade. Em minha família, ser considerado alguém lerdo sempre fora algo negativo. Somos pessoas que fazem coisas. Somos dinâmicos. Somos agitados. E o movimento é algo interessante. Acompanhamos com dedicada atenção uma criança descobrindo seu corpo, seu peso, seu balanço, como ela se equilibra, como se locomove. E nunca paramos para pensar que talvez esse não seja um processo tão fácil. Como já diziam as leis da física elementar, vencer a inércia é sim algo muito difícil. Mas, em contrapartida, quando o corpo se coloca em movimento sua tendência é seguir. A questão toda seria apenas começar. Depois de começar, a sensação de realizar coisas, de fazer atividades, é realmente muito prazerosa. Te dá ...

Elegância

É fácil confundir elegância com ser chique, usar roupas caras ou ter dinheiro. Em frases como "Elegância vem de berço" temos junto a ideia de que a elegância não apenas tem nome, como certamente tem sobrenome também. Graças ao poder imagético da televisão, imaginamos jantares servidos por serviçais, pessoas vestidas no seu mais fino traje, falando baixo e apenas sorrindo (quer algo mais deselegante do que rir alto e chamar atenção?). Para mim, por muitos anos, o sinônimo de elegância era uma antiga professora da faculdade, uma senhora petit , que usava um lenço nos ombros   e escrevia no quadro, sem que esse lenço sequer se movimentasse. Com que graça ela fazia isso! E nem preciso dizer que sua voz era também comportada como seu lenço. Outro representante   na minha lista da elegância era andar de salto com maestria. Não rebolando, não andando feito pato, apenas deslizando. Não importa qual fosse a altura do salto ou sua finura. Tempo vai, tempo vem, nossos padrões ...

A peso de ouro

Ela está ali olhando para você. Esperando. Rindo de sua hesitação. Você tira toda a roupa, tudo que possa ser excesso. Faz xixi. Sobe nela. Os números trocam, trocam, trocam, até chegar naquele valor exorbitante. Você olha. Olha mais uma vez. É, por mais que queira, ela não está errada não. Você chegou nesse peso. E sabia como havia sido. Estava consciente do processo de autossabotagem que havia realizado nos últimos meses. Agora estava ali o resultado. Havia cansado e decidido não fazer mais dietas. Uma vida toda emendando uma dieta na outra. A dos pontos, da sopa, da lua, do jejum, da proteína, além das de nutricionistas. Sim, já fora a muitas. Era praticamente uma tocadora de forró, só no corpo sanfona. Mas sua questão com a comida, sabia, era bem mais complexa. Como a maioria das pessoas com problemas de peso. Comia por estar triste, por estar ansiosa, por estar entediada, por estar alegre. Sua resposta sempre era: a comida. E assim nascem os hábitos. E assim pesam-se os quil...