Simplesmente não.
Certa vez uma amiga
me disse essa frase "O sim que eu digo para os outros é o não que eu digo
para mim mesma." Eu sei que ela pode soar um tanto egoísta, talvez
enfatizando que a gente só deva pensar em si próprios, mas ela traz uma
reflexão importante sobre o poder do não. Será que eu consigo dizer não? Ou me
sinto culpada? E com isso vou acumulando tarefas indesejadas ou que não dou
conta, programas sociais que queria evitar, tratamentos que me são indesejados?
Quantas vezes eu uso uma mentira social, para não precisar dizer um não
genuíno, do tipo "desculpa, mas não". Será que eu temo uma
reação negativa ao meu não?
Na verdade, nosso
medo de dizer não talvez esteja muito relacionado com o nosso próprio receio de
receber um não. Percebo nas últimas gerações que a nossa dificuldade de lidar
com a frustração vem se tornando cada vez mais acentuada. Queremos tudo não apenas
do nosso jeito, como queremos imediatamente. Se mandamos uma mensagem esperamos
uma resposta instantânea. Queremos likes. Queremos visualizações e seguidores.
E queremos ser aceitos, claro.
E fazemos o mesmo
com nossas crianças. Hoje em dia não criamos meros infantes. Criamos príncipes
e princesas. Aplaudimos quando eles se mostram independentes, quando já tem
vontades antes dos 3 anos. Ficamos impressionados porque achamos que isso é
sinal de desenvolvimento, e tememos que negativas possam tolhe-lo/a. E nisso
criamos crianças que não sabem mais lidar com a força de um não, que tem
problemas com limites, que se frustram, mas que não sabem entender essa
frustração.
Para adultos não é
muito diferente. Temos por exemplo que ter campanhas em que ensinamos aos
homens que o "não é não!". Com isso tentamos garantir que a escolha
principalmente das mulheres de não querer uma investida sexual seja respeitada
(mesmo que ela tenha ido ao apartamento dele, de fato apenas para tomar uma
cerveja). E o inverso também precisa ser verdadeiro. O quanto respeitamos o não
do homem? O quanto a sociedade aceita que um homem diga não a uma investida sem
que ele seja considerado afeminado ou até impotente? Parece que em termos
sexuais, nossa cultura acredita que a predisposição ao sexo deva ser sempre
considerada como a verdade.
Aí, em
contrapartida, temos a neurolinguística afirmando que a negação seria algo negativo, algo que o
universo não ouve. Então eu não posso pensar que 'não quero ser pobre', por
exemplo, porque isso seria considerado apenas como 'quero ser pobre' (afinal em
toda negação há uma afirmação). Dessa forma, diante de alguém que está disposto
a pular de um edifício, não diríamos 'não pula', mas diríamos algo como 'volta
para dentro', 'fica no lugar'. E isso até pode fazer um certo sentido. Nos
ajuda de fato a tentar focar no mais positivo.
Talvez o que
tenhamos que buscar seja o equilíbrio entre o sim e o não, resposta que
provavelmente esteja em nós mesmos. Temos sim que, em nossa atitude, sermos
positivos porque isso torna a vida mais leve. Mas, ao mesmo tempo, temos que
aprender a aceitar naturalmente o não que nos é dado, assim como temos que
aprender a dizer mais nãos para respeitar a nós próprios. Da mesma forma, temos
que ensinar nossas crianças que o não é tão natural quanto o sim, e que isso
não quer dizer nada a respeito de quem ela é e de suas capacidades. E tudo isso
é possível se acreditarmos que estamos sempre evoluindo, que cada um teu seu
espaço e seu processo de crescimento e que às vezes o não nos empurra mais para
a frente do que um próprio sim. Não é?
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