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Mostrando postagens de abril, 2020

Pacote de sal

Caso você não seja sobrinho da minha tia Alice, um pacote de sal pode não ter valor simbólico algum. Mas, para mim que sou, ao preparar meu almoço hoje e perceber que só tinha um finzinho do pacote, pensei 'Maravilha! Já se foi mais um!'. Por certo não é devido a uma competição insana que minha família faz para saber quem atinge a pressão alta mais rápido. É sim pela expressão tanto ouvida 'Vai dividir um pacote de sal primeiro.' Explico.  Caso você cozinhe, ou seja observador, ou apenas alguém com noção de volume, deve imaginar quanto tempo leva para terminar um pacote de sal. Um quilo, de pitadinha em pitadinha. É muita coisa. Ainda mais se você mora sozinha e não cozinha todos os dias. É daí que surge a genial expressão de quem viveu "um pouquinho" mais que a gente para se referir a um casal recém apaixonado, que acredita que o amor é lindo, que estar junto é lindo, que até os boletos chegando são lindos. 'Vai dividir um pacote de sal primeiro' e es...

Construção

(não essa não é uma postagem sobre a música do Chico - apesar de que seria ótimo. É realmente sobre uma construção física. Mais especificamente, a da frente da minha casa, ou, mais especificamente ainda, a do lado da minha janela do quarto). Manhãzinha (madrugada?) de segunda-feira. Perdida naqueles últimos sonhos da noite, os que parecem mais reais. Pá. Pá. Pá. Cablamtchibrau (ou qualquer outra onomatopeia que pareça um barulho muito alto). Coração acelera. Acordo num susto como se minha alma tivesse sido puxada pro corpo num impulso só. Minha consciência, por sua vez, tenta perguntar para ela, a minha alma recém chegada, o que era aquilo, que barulho tinha sido aquele. Logo penso na minha cachorra que, apesar de bem parrudinha, consegue pular o muro da minha casa para dar suas bandas. 'Pronto, agora lascou-se. A Juju finalmente se estabacou.' Naqueles 15, 30 segundos em que as ideias se organizam, abro a janela e vejo que não, não era a Juju, eram os pedreiros!, que já ...

Eu e a cama Eu e o banheiro Eu e a escada Eu e o café Eu e o jornal Eu e as H O ... R ... ... A ... ... ... S S S S Só. Eu e o sofá. Eu e o sofá. Eu... e o sofá... Eu... e o ... sofá ... So, fá... So... ... .. . Só.

Entusiasme-se

E então? Teu coach quântico te disse como manter o entusiasmo em um dia inteiro? 16h. Só para ti. Sem ocupações pré-definidas, como filhos, trabalho, casa. Essas ocupações que existem apenas para garantir que carregam um tanto das nossas horas sem nem percebermos, como se sempre estivessem estado ali. Entusiasmo. Ele te ajuda com o tempo. 'Não importa o que for fazer, desde que faça com entusiasmo.'   Só que, como lidar com esse pentassílabo?   Como ter fôlego até a última letra?   Diz que a palavra quer dizer "ter um Deus dentro de si".   Olha! Não é bonito? Mas que pressão maior que dá, não? Pra começar, temos que saber que Deus é esse. Seria um Deus punitivo, soberano, castrador? Um Deus que mede numa régua nossas alegrias, nosso entusiasmo com nossas ações? E que, usa essa mesma régua com violência, em nossas consciências, se não conseguimos nos deixar entusiasmar? Quem sabe talvez seja um deus zen, deus energia, deus sabedoria. Aquele deus da paz de ...

Palavras pulsantes

'Carente. Chata. Você só faz pressão. Você me afasta de ti. Não sabe ouvir um não. ' Essas palavras ainda retumbavam nela. Sentia não só na sua memória, nos sons se repetindo várias vezes. Sentia também no estômago, no mal estar de ouvir uma verdade assim tão dura de soco, mas como se fosse algo corriqueiro. Era tudo aquilo, sabia, sempre soubera. Dessa vez chegou a tentar controlar, fez o que pôde, mas não conseguiu. Era um padrão de comportamento muito antigo, essa carência infantil, que se tornou adolescente e chegou mais amena à vida adulta, mas que ainda estava lá, firme e forte, para surgir a qualquer instante. E o pior é que vinha em um processo legal, estava se curtindo cada vez mais, se conhecendo, se permitindo. Achou que já estava com tudo garantido, que já era dona de si. Ilusão, mera ilusão. Bastou o primeiro aceno, a primeira declaração impensada mas dita, para ela desmoronar de sua frágil torre de autoconhecimento e amor próprio (v iver o outro, agradar o...

Um passeio por Coqueiros (ou simplesmente 'Saudade')

Cheiro de maresia. Brisa no rosto. Barulho do mar. Procurei um café que eu jurava já tinha ido. Não achei (será que ele nunca existiu?) Caminhei pelas ruas de Coqueiros. Bairro nobre. A essa hora, meio da tarde, encontrei apenas o jardineiro que mantém as flores em ordem, o pintor que arruma a fachada, a moça da limpeza que cuida, claro, do trabalho sujo. A essa hora, os donos das casas estão garantindo o meio de tê-las e mantê-las. A água é cristalina. O sol agora reflete nela. Reflete também no meu papel. É engraçado como o mar tem uma força contemplativa. Encontro também pelo meio do caminho pessoas sentadas olhando esse mesmo mar, esse mesmo imenso azul, esverdeado, ouvindo o mesmo movimento cadenciado da água.  O que será que o mar diz a elas? O que será que elas dizem ao mar? Ou será que cantam? Seria bom se cantassem... Sigo para Itaguaçu, na festa das bruxas de pedra. E essas pedras, o que será que elas cantam? Talvez apenas repitam em voz sussurra...

E não é tão bom?

E não é tão bom quando aquele quebra-cabeça difícil que você até já tinha deixado de lado porque achava que não conseguiria terminar de repente se desembrulha? E não é nem por uma pecinha achada embaixo do sofá, ou que um tio sacana roubou (se você é um Martins, entenderá). É por uma peça que sempre esteve ali, entre as outras, esperando o momento certo de ser encaixada. E aí, é como virar uma chave. Parece que todo o resto se desenrola. E eu acho que falei ali a expressão precisa: o tempo certo. Sempre tive um problema com esse tal de tempo certo. Ainda mais porque sempre me achei em alguns aspectos mais atrasada que meus contemporâneos (no eterno páreo social de quem chega primeiro não sei onde). E, diga-se de passagem, sempre tive que ouvir da minha mãe ou de outras pessoas que gostavam de mim o suficiente para se importar "Calma, vai chegar no tempo certo." Claro que eu sempre pensava quando ouvia isso "Foda-se o tempo certo! Quero o meu tempo!". Que, no c...

Café com leite

Você já ouviu essa expressão, café com leite? Normalmente usada entre crianças maiores, ela quer dizer que elas fingem que você, criança menor, faz parte de um jogo ou brincadeira quando, na verdade, você não faz de fato. É quando, por exemplo, você, pequeno, está no meio do jogo de vôlei achando que está jogando mas ninguém lhe passa a bola. É uma mistura de benevolência com crueldade, uma vez que você está participando sem realmente participar. E por que esta expressão? Talvez porque quem jogasse fosse o café de verdade, café puro, café forte e você só conseguisse ser um meio café, um café apaziguado pelo leite, talvez até adoçado, aquele café colo de mãe quando a gente rala o joelho. Eu sempre achei esse hábito péssimo, até porque fui durante muitos anos uma café com leite. Me recordo da frustração quando me dava conta de que não estava fazendo parte do jogo, de que eu não era tão grande ou legal como os outros. Ou até coordenada. Mas, na verdade, se formos pensar há um fu...

A fala

Diálogo Dois pólos Um jogo de raquetes Impulsão - impulsão Impulsão - impulsão Enquanto houver fôlego. Monólogo Falar sozinha As palavras giram E te aparafusam no lugar Voz  ouvida  no  eco  de  si.

Lembranças

Vó e neto conversam. O ano é 2065. _ Vó, hoje na escola o meu professor falou da pandemia de 2020. Eu disse que já conhecia, porque a senhora tinha me falado disso. _ Verdade meu filho. Já falamos mesmo. Tempos difíceis aqueles... _ Quando alguém perguntou se ele tinha vivido ele disse que era muito criança, que estudou mais como historiador. A senhora não né vó? _ Não. Eu tinha em torno de 30 e poucos anos. E a gente sabia que estava vivendo a história. Não fazia muito tempo tinha tido uma greve dos caminhoneiros no Brasil que já nos tinha dado uma ideia de como seria o país parar, mas agora era global. _ E é verdade que muitos acreditavam que a própria China tinha criado o vírus, por motivo econômico? _ Ih Caique, era um tal de diz que me disse. Tinha gente para acreditar em tudo. Tinha até quem nem acreditava no vírus, achava que era conspiração, coisa para enfraquecer governo. _ Sério, mesmo com todas as mortes? Lembrou da discussão que ouvira entre a filha e o ge...

Dando nome aos bois

Se o ser humano é um ser social por natureza (o que não é sinônimo de sociável, claro) a comunicação é, por certo, elemento imprescindível para desenvolver essa sua característica.  Mas e o quanto comunicamos do que queremos de fato comunicar? E as mulheres? Elas teriam um jeito específico de fazer isso? Tipo, um superpoder? Uma habilidade de dizer o não dito, e entender os dois. O texto de Millôr Fernandes que dá nome a esse blog acredita que sim e põe lenha nessa reflexão.  A vaguidão específica Millôr Fernandes " As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica."  Richard Gehman _ Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte.  _ Junto com as outras? _ Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia.  _ Sim senhora. Olha, o homem está aí. _ Aquele de quando choveu? _ Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo. _ Que é que você disse ...