Este não é um texto
Dentre as tantas
recomendações para se distrair na quarentena, adoro aquelas que, além de
fazerem passar as horas, também me dão uma mexida. Foi o caso de Tempero Drag, recomendado por uma grande
amiga e que, apesar do nome, não é sobre culinária. Basicamente são vídeos
muito bem estruturados e com referências que me colocaram para pensar em
assuntos que eu já de alguma forma me interessava. Um deles foi a questão do real
e da representação do real (o tema do vídeo era ela falando que não, ela não
era uma mulher e questões de gênero).
Nesse vídeo,
aludindo à obra A traição das imagens, do
belga René Magritte, em que abaixo da imagem de um cachimbo lê-se "Ceci
n’est pas une pipe" ("Isto não é um cachimbo") (nota mental,
seria ótimo a foto de um presidente, qualquer um, aleatório, com a frase em
francês "Ceci n’est pas une idiot") (nota mental 2, talvez fosse
muito óbvio, apesar de engraçadinho) (nota mental 3, vocês não adoram
parênteses?), a fabulosa Rita Von Hunty anuncia aos seus expectadores que,
quando eles veem um vulto histórico numa série ou filme, como a Rainha
Elisabeth, Hitler ou o último Czar Russo, não é a própria pessoa que estão
vendo, mas sim uma representação dela. Eu sei que isso pode parecer óbvio para quem gosta de ou
pensa a arte ou para quem seja um leitor/expectador mais crítico. No entanto,
com certeza - e aqui eu me deixo abusar do exagero - a maioria das pessoas não
é assim.
Como não ceder à
ilusão da imagem em movimento, da trilha sonora, de uma boa edição? Sem contar
com atores e atrizes competentes, claro. Da mesma forma que personagens bem
construídos em livros de ficção seguem nos acompanhando mesmo depois que os
colocamos na estante, os personagens que ganham vida nessas representações
imagéticas passam a ser, para quem vê, o real.
Um bom exemplo disso
é o filme Sérgio, em que o ator Wagner
Moura representa, na minha opinião com bastante qualidade, o diplomata das
Nações Unidas Sergio Vieira de Mello. Dirigido por Greg Barker, o filme mostra
alguns momentos do trabalho desse brasileiro nas Nações Unidas, incluindo seu
relacionamento com Carolina Larriera. Enquanto via o filme, passava o tempo
todo pensando "Nossa! Esse cara é muito foda, e ainda por cima é
brasileiro!", ao mesmo tempo em que constantemente me forçava a raciocinar
"Lembra, ele realmente pode ter sido o cara, mas tudo isso está sendo
contado, desse jeito, para te fazer pensar isso."
Nesse momento você
pode pensar "Ok, concordo. Até faz sentido. Mas, e daí?" E daí que
essa linha tênue entre o que é realidade e o que acreditamos que é realidade,
fica ainda mais fina nessa situação, permitindo que sejamos manipulados a crer
em realidades que talvez não sejam as nossas. Explico. Ao acreditarmos que
narrativas, mesmo baseadas em fatos reais, são a própria vida, estamos
favorecendo que mais narrativas sejam feitas sobre o que seja conveniente de
ser creditado como real. Foi, por exemplo, o caso de Hitler e da sua propaganda
nazista. Nesse nosso momento histórico em que analisamos o que era feito
naquela época, pode parecer evidente, límpido como água, as intenções nazistas.
Mas e será que conseguimos perceber intenções talvez semelhantes, mas
contemporâneas?
Saindo um pouco do
campo da arte (propaganda?), não é exatamente daí que surgem as fake news?
Pega-se uma crença que as pessoas já tenham e a partir dela cria-se uma notícia
que faça sentido, para quem já quer acreditar nela. E, com isso, cria-se uma
realidade, tão real quanto o pote de ouro do arco íris ou ganhar sozinho na
loteria. Mas, assim como a esperança da riqueza fácil nos faz bem, ver
personagens idealizados na tela, ou histórias extraordinárias e acreditar nelas
também faz bem. No fundo, talvez seja isso. Todos queremos ter algo em que
crer. Estão aí as religiões que não nos deixam mentir. Em épocas em que tudo
parece mais fluído, menos concreto e com menos certezas (Por favor!), talvez
queiramos apenas a solidez de poder entender mais e ter a impressão de que
conhecemos a realidade, de que damos conta dela, palpável.
Mas, mesmo que essa
seja supostamente a nossa essência, temos que cuidar para não nos deixar acreditar tão facilmente, para manter sempre
acesa a luz da dúvida. Mesmo que a gente queira acreditar muito no que estamos
vendo/lendo. Digamos que a máxima a se seguir possa ser, o que os olhos
veem/leem, a mente sempre desconfia. E por mais que este pareça também um
exercício banal, ele pode ser, na verdade, um dos atos mais radicais que a
gente possa fazer. Porque nos coloca sempre em postura de refletir, mesmo
quando estivermos lendo algo seguro e confortável de dentro da nossa bolha (e
este, é um texto?).
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