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Eu estou aqui

Sempre soube que seria mãe. Não era algo de sonho, ou de desejo. Eu apenas sabia: vou ser mãe. Mas, o tempo foi passando. As desilusões amorosas foram se somando. E a maternidade não se concretizava. Até que aconteceu. De um jeito torto, de um jeito muito doído, mas aconteceu. E, de modo involuntário, apenas como deveria ser, meu filho se tornou o centro da minha vida. E ele sabe disso, sente e sabe. É por isso que, mesmo quando não o estou procurando, às vezes ele para o que está fazendo e vem até mim apenas para dizer "mãe, eu estou aqui." E então eu sorrio, sorrio dessa confiança dele de que, já que não está ao meu lado, está fazendo falta para mim.   Sim, meu filho me dá trabalho, ele me cansa, ele me tira muito do sério, ele me causa tremenda insegurança e ele reforça em mim a certeza de não saber mais ao certo quem sou. Mas ele também me mostra descobertas que eu nunca veria. Ele me pede para relaxar e desacelerar. Ele me motiva a encontrar o melhor de mim. Ele me estim...

Oi xará, como você está?

  Sei que faz tempo que não nos falamos. Sei que as pessoas hoje nem escrevem mais cartas. Mas acho que ainda é um pouco romântico. E, além do que, não me dou bem com computadores. Teu pai até tem um, que usa pros arquivos do supermercado, mas eu não me arrisco a tentar entender essa máquina. Você deve ter um, claro, agora que escreve. Na verdade, foi isso que me fez escrever para você. Li um livro seu. Não é seu nome que está na capa, mas sei que é você. Você e eu, sob seu olhar de criança. Ler esse livro foi duro para mim. Foi olhar-me num espelho embaçado, de verdades que nunca quis enfrentar. Como nunca consegui estar presente para você. Como nunca consegui estar presente nem para mim mesma. Certamente foi por isso que você foi embora na primeira oportunidade que teve. Aquela bolsa para a Espanha era tudo que você estava esperando. E posso ver que ela de fato deu a virada que você esperava para a sua vida. Agora você parece feliz. Tem sua carreira, acho que está morando com alg...

Oásis

O Bento ama livros. Eu amo livros. Meus pais amam livros. Minhas irmãs amam livros. Meus sobrinhos amam livros. Somos aquele tipo de pessoa que quando lê uma história para uma criança faz a voz dos personagens, dá entonação para as palavras, cria a ênfase que a história pede. Bento tem 1 ano e 7 e já sabe escolher seus livros, da sua biblioteca, organizada em prateleiras da sua altura. É claro que sua coordenação motora nem sempre ajuda nesse processo de pegar e recolocar os livros, mas ele sempre sabe que história quer ouvir. E já tem paciência para narrativas um pouco mais longas.  Ter um filho leitor, para mim, certamente está sendo a parte mais fácil da criação dele. Eu realmente adoro livros infantis. Eu já os comprava quando ainda nem imaginava ser mãe. Para mim, essa união de uma bela história com excelentes ilustrações é envolvente demais. E como tem histórias boas! Deixa bem fácil gostar de ler. O que eu não tenho paciência é para livros infantis com moral. Ah, isso a gent...

Um caderno e uma faca

Essa semana foi pauta em um dos almoços aqui de casa a dona Onorina. Dona Onorina era uma professora que, nos idos de 1964, utilizava em sua abordagem pedagógica bater com uma régua de madeira nos dedos dos alunos de 9 anos para que se aplicassem nos estudos e se comportassem. Na mesa as opiniões se dividiram. A turma da dona Onorina era a dos melhores alunos, portanto, alguns defenderam que sua metodologia funcionava. Além disso, quem passou por isso está aí, adulto feito e de bons princípios. Enquanto outra porção da mesa, defendia que não é preciso uma professora bater em seus alunos para que eles sejam bons, eles também podem ser motivados por outras formas menos violentas de estímulo. O que todos concordavam era que não era mais possível que uma professora nos tempos atuais mantivesse a mesma postura.  Hoje me deparo com a notícia de que um aluno em São Paulo esfaqueou quatro professores e alguns colegas. O aluno tem 13 anos. A professora Elisabete Tenreiro de 71 anos faleceu....

Olhos de quem vê

Você provavelmente já leu em algum lugar sobre a metáfora de trocar os óculos para ver a vida com outros olhos. Pois outro dia me peguei pensando nela. Isso porque, enquanto eu passeava por um lugar onde passo sempre no meu dia a dia, me vi prestando atenção em duas árvores que estão ao lado uma da outra e que neste momento estão floridas. Uma com viçosas flores vermelhas de cinco pétalas e a outra com flores também grandes e cor de rosa. Uma mais alta, a outra mais copada. E eu me vi pensando que elas faziam uma bela dupla, que combinavam assim, lado a lado, que constituíam realmente um rico par. E não pude deixar de sorrir com essa minha observação e de pensar que é disso que é feita a literatura: um olhar de quem procura ver além do banal, de quem observa e, principalmente, de quem imagina. Eu não cheguei a ir adiante com o pensamento, mas é bem possível que se o fizesse imaginaria um par de dançarinas talvez, com suas saias floridas dançando carimbó em Santarém, no Pará. Ou duas ...

Lembra daquela?

Imagine a cena. Você e aquele ou aquela velha amiga se reencontram depois de anos para um café. Após um forte abraço e contar um pouco o que estão vivendo, é bem provável que venha também uma sessão nostalgia. O momento de relembrar outros tempos, situações compartilhadas que, de alguma forma, marcaram a amizade. O mesmo poderia se passar numa reunião familiar, ou num grupo de amigos reunidos. E dependendo do número de pessoas, as lembranças poderiam se suceder por um longo tempo, porque certamente não faltaram momentos vividos que valessem ser relembrados. O mais bacana dessas memórias é que não cansamos de relembrá-las por diversas vezes, muitas mudando algo, acrescentando um detalhe, tudo dependendo do interlocutor e do entusiasmo do momento. E é claro que, mesmo que você não tenha feito parte de alguma delas, elas passam a ser suas também, de tanto que foram ouvidas. Há na minha família um caso clássico desses, em que uma lembrança de infância se passou na antiga Caravan do meu p...

Feliz bom ano

Pois bem. Lá estamos nós de novo. Um ano que se inicia, mesmo que seja ainda um desses anos que não sabemos bem se irá valer para a nossa conta de anos vividos. Isso porque desde que entramos em pandemia e nos vimos forçados a deixar em stand by muitos dos hábitos que tínhamos, como viajar e encontrar pessoas, por exemplo, ou pular carnaval e ver os fogos da virada, brincamos, mas com um certo grau de verdade, que esses anos não contam, que agora estaríamos iniciando 2020 e não 2022. Mas será mesmo? Datas festivas são sempre controversas pois há, de um lado, a tradição e de outro como nós decidimos passá-las. O ano novo certamente é uma dessas. Você pode vestir branco, pular sete ondinhas, comer a uva ou a romã, tomar champanhe, assim como você pode não fazer nada disso. Não são os rituais que fazem com que o ano que se inicia seja bom ou não, mas é sim o seu estado de espírito, a sua intenção para o ano. Se você acredita, por exemplo, que todo começo é sempre uma nova oportunidade i...