Escrevo, logo existo
Certamente alguém que tenha um blog gosta de escrever, ou, se não chega a gostar, ao menos sabe fazê-lo. A questão que eu gostaria de suscitar, na verdade, é, por que alguém escreve. Pode ser porque está com tédio, pode ser porque quer ser lido e ter reconhecimento, pode ser porque alguém esteja pagando (casos menos abundantes, mas existentes). No meu caso, especificamente, a minha escrita está muito relacionada ao mesmo motivo pelo qual eu leio literatura de ficção. Assim como a leitura pode ser um portal para outros mundos, a escrita é uma passagem para dentro de si mesmo. É na materialidade da página em que você consegue não apenas ser você, como ir além, permitindo inclusive se conectar com uma parte submersa sua. O que deve ficar claro, no entanto, é que, mesmo que o que esteja no papel ou na tela seja parte de quem escreveu, afinal surgiu dessa pessoa, não quer dizer que represente quem ela é. Explico. Se eu escrevo sobre uma cena de estupro ou de uma tortura, por exemplo, não quer dizer que eu já passei por isso. Quer dizer apenas que eu consigo pensar e sentir o assunto e me colocar como vítima ou como agressor, talvez até testemunha.
E
talvez essa seja a diferença da pessoa que escreve ficção: o seu olhar para o
mundo. Aqueles que cruzam o seu caminho podem só passar ou podem tornar-se
personagens. Um trejeito, uma ação, um história implícita. Do mesmo modo os
fatos da vida podem tornar-se cenas de um enredo. A matéria prima da escrita está
na própria vida, pulsante e extraordinária, mesmo se cotidiana. Tudo depende do
modo de olhar. E acreditem, essa habilidade de perceber nuances e imaginar pode
ser adquirida e treinada, não é nenhum tipo de dom. Basta estar disponível e
disposto/a.
Mas
a escrita não precisa ser apenas ficcional. Outro tipo de escrita que me faz
existir é a escrita de diários, a escrita para si próprio/a. Essa é uma escrita
livre, catártica, que muitas vezes não é feita apenas de tinta ou grafite, mas
também de lágrimas, sangue ou sorrisos. Porque quando passamos nossos
sentimentos para o papel é como se ele nos acolhesse, como se dissesse
"deixa comigo que eu te entendo". Diários salvaram pessoas em
prisões, em guerras, em campos de concentração. Se não chegaram a salvar
exatamente suas vidas, salvaram sua humanidade, sua capacidade de acreditar, de
lidar com a realidade que fere.
Nesse
momento peço licença para tornar meu diário público e contar um pouco de mim.
Desde criança o mundo das histórias sempre me encantou. Na maior parte das
vezes, era ele que expandia o mundo de uma menina retraída em si mesma. E desde
muito nova a escrita também me encantava. Eu dizia com orgulho que queria ser
escritora. Mas a vida foi seguindo, minhas escritas acabavam sempre sendo aquelas
sistemáticas com fins burocráticos (um trabalho acadêmico, um e-mail, algumas
poucas cartas) ou as pessoais que ficavam apenas para mim. Eu nunca nem pensava
em me arriscar na escrita ficcional porque tinha medo de que fosse como quando
a gente ouve nossa própria voz gravada e pensa "nossa! É assim que eu soo
fora da minha cabeça?". Além disso,
quem era eu para tentar escrever algo que os outros fossem ler? Eu estou tão longe
de ser como os/as autores/as que admiro! E foi então que veio a pandemia e,
junto com as incertezas e a solidão do isolamento, veio também uma intensa
impressão de que tudo que eu tinha dentro de mim ia, a qualquer momento,
ebulir. E foi nesse momento em que eu achei em mim o meu botão de
"foda-se" e decidi que, mesmo que eu não fosse uma Clarice ou um
Guimarães, eu seria uma Marina, uma Marina que escreve.
Digo
tudo isso para dizer que, depois desses alguns meses em que dei uma pausa na
minha escrita, eu voltei. Voltei porque a vida me chamava e eu já não sabia
mais me reconhecer sem ser nessas linhas digitadas. E posso afirmar que, ao fim
desta crônica, finalmente me sinto viva de novo.
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