Oásis

O Bento ama livros. Eu amo livros. Meus pais amam livros. Minhas irmãs amam livros. Meus sobrinhos amam livros. Somos aquele tipo de pessoa que quando lê uma história para uma criança faz a voz dos personagens, dá entonação para as palavras, cria a ênfase que a história pede. Bento tem 1 ano e 7 e já sabe escolher seus livros, da sua biblioteca, organizada em prateleiras da sua altura. É claro que sua coordenação motora nem sempre ajuda nesse processo de pegar e recolocar os livros, mas ele sempre sabe que história quer ouvir. E já tem paciência para narrativas um pouco mais longas. 

Ter um filho leitor, para mim, certamente está sendo a parte mais fácil da criação dele. Eu realmente adoro livros infantis. Eu já os comprava quando ainda nem imaginava ser mãe. Para mim, essa união de uma bela história com excelentes ilustrações é envolvente demais. E como tem histórias boas! Deixa bem fácil gostar de ler. O que eu não tenho paciência é para livros infantis com moral. Ah, isso a gente deveria deixar para os dedos levantados dos cuidadores. Com certeza esse não é para ser o objetivo de um livro pra crianças. Os livros fazem imaginar, atiçam a curiosidade, geram medo para depois gerar coragem, fazem rir, enfim, criam um mundo para além daquele em que a criança vive. 

Eu sou professora de línguas e literatura e agora sou escritora também, mas antes de tudo eu sou leitora. Na verdade é bem provável que, por ser leitora, acabei me tornando os outros dois. E o fato de ter a literatura como companheira de momentos bons e ruins fez toda a diferença na minha vida. A minha capacidade de mergulhar em um livro gera uma realidade paralela tão forte que às vezes sirvo arroz para os personagens que almoçam comigo na mesa. No entanto, fazia uns tantos meses que eu não lia (para não dizer mais de ano). Consegui quebrar esse jejum com um clube de leitura apenas de autoras femininas organizado por duas grandes amigas e uma colega delas. No primeiro encontro, cada membro do clube falou brevemente porque estava ali. Qual foi minha surpresa quando, na minha vez, eu me vi engasgar para dizer que aquele encontro não era apenas com livros, mas era um encontro de novo comigo mesma. Porque sim, a literatura é parte de mim, e, pelo que venho notando nos últimos tempos, uma parte bem considerável. 
Essa capacidade que a arte tem de nos tirar do nosso lugar, nos dar uma sacudidela ou nos abraçar, para depois nos pôr de volta, para mim, nada mais tem. A oportunidade de viver mundos que não são os meus mas que poderiam ser. De sentir. Simplesmente de sentir tão forte como se a tinta da impressão realmente fizesse um tipo de magia. É por isso que ler para o Bento desde quando ele nasceu não era algo estudado, era, na verdade, meus momentos de puro e simples deleite, era eu sendo eu mesma. 

Esse era para ser um texto sobre o que aconteceu em Blumenau, mas eu não consegui - ou não quis. Não quis de novo manchar meu teclado com sangue, o pior de todos, sangue infantil. Não tem como escrever sobre o incomentável, sobre o tipo de notícia que gera uma bola no estômago junto com um medo, uma raiva, uma ansiedade, um desamparo. Depois que eu soube do ocorrido, eu li umas cinquenta páginas do livro que estou lendo e dei 12 voltas caminhando no meu condomínio. Aí eu me lembrei dos pedaços de madeira que me mantem na superfície do absurdo que pode ser o mundo de hoje. Também rezei e chorei. Chorei pelas famílias, pelo meu filho. Mas enquanto caminhava ainda sob efeito do que tinha lido, não pude evitar que o Dom Quixote que habita em mim surgisse, para me dar a certeza de que se cada escola do mundo, mesmo as mais precárias, tivesse uma biblioteca com muitos livros, bem selecionados, com espaço para rodas de leitura, para teatros, para se montar pequenos circos, com bibliotecárias(os) capacitadas(os), com mediadores de leitura, um lugar iluminado, arejado e convidativo, talvez o mundo fosse diferente. É claro que ainda haveria as grades nas portas e janelas, o guarda na frente, que ainda haveria os monstros que se fingem de humanos, mas ao menos haveria também um oásis para todos os outros poderem se encontrar.  

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