Café com leite
Você já ouviu essa
expressão, café com leite? Normalmente usada entre crianças maiores, ela quer
dizer que elas fingem que você, criança menor, faz parte de um jogo ou
brincadeira quando, na verdade, você não faz de fato. É quando, por exemplo,
você, pequeno, está no meio do jogo de vôlei achando que está jogando mas
ninguém lhe passa a bola. É uma mistura de benevolência com crueldade, uma vez
que você está participando sem realmente participar.
E por que esta
expressão? Talvez porque quem jogasse fosse o café de verdade, café puro, café
forte e você só conseguisse ser um meio café, um café apaziguado pelo leite,
talvez até adoçado, aquele café colo de mãe quando a gente rala o joelho.
Eu sempre achei esse
hábito péssimo, até porque fui durante muitos anos uma café com leite. Me
recordo da frustração quando me dava conta de que não estava fazendo parte do
jogo, de que eu não era tão grande ou legal como os outros. Ou até coordenada.
Mas, na verdade, se formos pensar há um fundo social interessante nessa
prática. O café com leite funcionaria como uma aceitação, de certa forma, como
um treino de observação para dali a alguns anos. As crianças maiores deixam
você se passar por um deles, mesmo que de fato saibam que você não consegue.
Lidar com a frustração, aí é com você depois (o que com certeza já é um
aprendizado para a vida).
E como seria trazer
essa prática do café com leite para a vida adulta? Porque às vezes também nos
sentimos excluídos desse jogo, em que todos parecem saber jogar menos nós, por
mais que estejamos ali, em quadra. Conseguir um emprego pode não ter sido tão
difícil, mas e as relações com os colegas ou com a/o chefe? Quantas regras há
para essa relação? Teria uma de ouro? E
quando temos que nos posicionar no trabalho então? Bola em jogo e veloz! Ou
então num relacionamento. As posturas que tomamos, as escolhas que fazemos,
como nos deixamos ser tratados e como tratamos. Tudo isso faz parte desse partida que parecemos estar no meio, às vezes meio feito bobos mesmo, esperando de onde vai vir
a bola. Mas, você olha para o lado e todos estão trabalhando normalmente. E
você olha para o outro lado e todos estão simplesmente se relacionando.
É então que acontece
aquele momento, um instante em que você se dá conta que você também está ali.
Mesmo que pareça às vezes fora do jogo, que nem sempre entenda todas as regras,
você está ali, está jogando. E então percebe que a vida é assim mesmo. Que você
entra no jogo mesmo que não se sinta preparado, mesmo que às vezes não
compreenda tudo. E quando vê, a bola chega em você. E sem nem se dar conta você
a coloca onde deveria estar, seja na rede, no aro ou na mão do parceiro. E
percebe, assim, que já pode se considerar café puro, café forte como os outros.
E decide que, como alguém que entrou no jogo, vai adicionar um pouco de leite,
porque agora você pode.
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