Construção


(não essa não é uma postagem sobre a música do Chico - apesar de que seria ótimo. É realmente sobre uma construção física. Mais especificamente, a da frente da minha casa, ou, mais especificamente ainda, a do lado da minha janela do quarto).

Manhãzinha (madrugada?) de segunda-feira. Perdida naqueles últimos sonhos da noite, os que parecem mais reais. Pá. Pá. Pá. Cablamtchibrau (ou qualquer outra onomatopeia que pareça um barulho muito alto). Coração acelera. Acordo num susto como se minha alma tivesse sido puxada pro corpo num impulso só. Minha consciência, por sua vez, tenta perguntar para ela, a minha alma recém chegada, o que era aquilo, que barulho tinha sido aquele. Logo penso na minha cachorra que, apesar de bem parrudinha, consegue pular o muro da minha casa para dar suas bandas. 'Pronto, agora lascou-se. A Juju finalmente se estabacou.' Naqueles 15, 30 segundos em que as ideias se organizam, abro a janela e vejo que não, não era a Juju, eram os pedreiros!, que já tinham chegado!, antes das 7h!, e que sim, destruíam algo! (já disse antes das 7?!)

Mas, quem nunca passou por essa relação de amor e ódio com uma construção que interfere no seu cotidiano? Primeiro a expectativa, quando se vê que, o antes terreno baldio, a esperança (minha ao menos) de um parque com árvores e crianças, agora começa a ser arrumado para receber uma obra. 'O que será que vai sair?'. Mais crucial 'Quem será que vem morar aí?'. E, infelizmente, a pergunta mais preocupante para uma mulher que mora sozinha e que vai ter sua rotina acompanhada cotidianamente por alguns meses 'Quem/quantos vai/vão trabalhar na obra...?'

E a obra começa. E o barulho constante começa junto. Ao acordar, ao tomar café, ao ver o jornal, ao fazer uma webconferência (sim, esse é um texto da pandemia de 2020), ao ler. Só não na hora sagrada do mate ao entardecer, porque a obra que começa cedo, também termina cedo. Mas o mais engraçado nisso tudo é que, numa espécie de síndrome de Estocolmo do cimento, mesmo que o barulho seja sim teu algoz, tu acaba te acostumando com ele, já teu companheiro cotidiano, a ponto de sentir falta de algo no fim de semana, mesmo que não saiba bem o que é.

E, entre barulhos e pó a construção vai nascendo. Tijolo, argamassa, madeiras e vai surgindo uma sala, um quarto, cozinha, banheiro. Um muro. E uma casa vai tomando forma. E a expectativa de um lar também, de situações que serão vividas ali. E sabe que é bonito de ver? Tu fica pensando como o homem copia tão bem a natureza, como um joão-de-barro pedreiro. Por sinal, escrevo esse texto lembrando certamente do meu avô paterno, que era pedreiro. Do meu pai e meus tios, todos, com uma boa noção de construção. Não sei se por uma certa reverência ancestral, mas de fato respeito e admiro a profissão. A habilidade que constrói paredes e junto, edifica esperanças.

Pronto. Nas linhas deste texto já fiz as pazes com os meus pedreiros daqui. Com eles e com sua avidez pelo trabalho, em uma segunda-feira de quarentena, antes das 7h da manhã.

Comentários

  1. Vou tentar olhar de forma mais tolerante pras obras perto de mim, hahahaha, adorei o texto!

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  2. Legal Alice! Haha acho q os pedreiros agradecem.

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  3. Lembro dessa aula, precisamos construir um texto, eu gostei muito do meu, joguei fora meus materiais a pouco tempo com muita dor no coração. Hahahahaha. Vou adorar acompanhar seus textos.

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    1. Sim, tb fico com pena quando me desfaço dos materiais. Vai ser ótimo te ver por aqui. :)

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