E não é tão bom?


E não é tão bom quando aquele quebra-cabeça difícil que você até já tinha deixado de lado porque achava que não conseguiria terminar de repente se desembrulha? E não é nem por uma pecinha achada embaixo do sofá, ou que um tio sacana roubou (se você é um Martins, entenderá). É por uma peça que sempre esteve ali, entre as outras, esperando o momento certo de ser encaixada. E aí, é como virar uma chave. Parece que todo o resto se desenrola.

E eu acho que falei ali a expressão precisa: o tempo certo. Sempre tive um problema com esse tal de tempo certo. Ainda mais porque sempre me achei em alguns aspectos mais atrasada que meus contemporâneos (no eterno páreo social de quem chega primeiro não sei onde). E, diga-se de passagem, sempre tive que ouvir da minha mãe ou de outras pessoas que gostavam de mim o suficiente para se importar "Calma, vai chegar no tempo certo." Claro que eu sempre pensava quando ouvia isso "Foda-se o tempo certo! Quero o meu tempo!". Que, no caso, era o agora. Como alguém que levou consigo por muito tempo os resquícios de uma guria emburrada, imaginem que essa frase, a minha, claro, igualmente sempre me acompanhou.

Aí houve a época em que acrescentaram um elemento metafísico à questão. "O tempo certo é o tempo de Deus." Ah, então agora ficou fácil! É tipo tu pedir ao diretor da escola: "E aí, não dá para me liberar mais cedo não? Tenho que fazer as unhas". E, enquanto eu esperava as coisas que queria para ontem, ficava me questionando: tá, mas que tempo certo é esse? Se ele não chega nunca então eu estou vivendo o tempo errado? E quando ele chegar, como vou saber que é o certo? Ou ainda o mais herege: e Deus está esperando o quê, que mal pergunte?

Um dos meus poemas favoritos, também de um dos meus poetas xodó, é um de Mário Quintana em que ele fala da rápida passagem do tempo e de como se lhe fosse dado um dia, uma outra oportunidade, ele nem olharia o relógio "seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas." Se para o eu-lírico desse poema o problema era o tempo que ia rápido demais, para mim talvez nem fosse esse, mas as coisas, os meus desejos não virem na velocidade que eu gostaria. Sabe a ansiedade pré-dia de qualquer coisa que você queira muito? Que tu não vê a hora logo de chegar? Que tu já está com a mochila pronta e revisada 12 vezes?

Mas, vivência vai, vivência vem, muitas frustrações, mais leves, menos leves, com mais ou menos cicatrizes, terapia para toda a vida amém, prática constante de meditação e, finalmente, começo a entender. O tempo certo é como o tempo da natureza, do amadurecer de uma fruta, do crescimento de um ser (da proliferação de um vírus... ?). O tempo que as coisas tem para estarem prontas. Só porque eu fico olhando ansiosamente o bolo de laranja crescer no forno, não quer dizer que ele vai assar mais rápido para mim.  É a frase que eu descobri há uns anos mas que vem se fazendo mais certa a cada vela que sopro: O mestre só aparece para quem está pronto. Quer sabedoria maior do que essa? Que diz não apenas de sua maturidade para compreender mas também de seu desejo de querer saber?

Não sei se foram essas horas todas que a quarentena me deu, mas acredito poder dizer que fiz as pazes como o tempo. Ao invés de questionar quando algo vai acontecer,  o que peço agora é que a pressa só me leve aonde a calma não conseguiu levar.

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