Lembranças


Vó e neto conversam. O ano é 2065.
_ Vó, hoje na escola o meu professor falou da pandemia de 2020. Eu disse que já conhecia, porque a senhora tinha me falado disso.
_ Verdade meu filho. Já falamos mesmo. Tempos difíceis aqueles...
_ Quando alguém perguntou se ele tinha vivido ele disse que era muito criança, que estudou mais como historiador. A senhora não né vó?
_ Não. Eu tinha em torno de 30 e poucos anos. E a gente sabia que estava vivendo a história. Não fazia muito tempo tinha tido uma greve dos caminhoneiros no Brasil que já nos tinha dado uma ideia de como seria o país parar, mas agora era global.
_ E é verdade que muitos acreditavam que a própria China tinha criado o vírus, por motivo econômico?
_ Ih Caique, era um tal de diz que me disse. Tinha gente para acreditar em tudo. Tinha até quem nem acreditava no vírus, achava que era conspiração, coisa para enfraquecer governo.
_ Sério, mesmo com todas as mortes?
Lembrou da discussão que ouvira entre a filha e o genro, quando descera para tomar uma água. De como ele acusava ela, a sua mãe, de influenciar o menino, de querer doutriná-lo com suas histórias. Imagina, isso em 2065! E na sua própria casa! Mas respeitava a filha. Tentava respeitar suas escolhas. Mas, principalmente, respeitava sua paz de espírito. Deu uma desconversada.
_ Sabe como é ne meu filho, cada um acredita no que lhe é mais conveniente ou lhe parece fazer mais sentido. É assim mesmo.
_ Ah pois eu acredito na ciência. E na história. Quando crescer quero ser um pesquisador, que nem o tio Bruno.
_ Mas tu sabe que a história e até mesmo a ciência podem ser questionadas também, não sabe?
_ É verdade vó...
_ Mas e me conta, chegaram a alguma conclusão na escola? Sobre a pandemia?
_ A vó, o pessoal também ficou meio dividido. Mas muitos não acreditavam que uma coisa assim acontecesse tão rápido. Parecia coisa de videogame sabe?
_ Pois sei bem sim. Mas posso te contar uma coisa?
_ Diz.
_ Tu sabe o que eu mais me lembro da época da pandemia? Entre notícias de jornais e artigos científicos? Era quando alguém compartilhava um vídeo de pessoas cantando na sacada, comemorando o aniversário de um vizinho, ou fazendo as compras para algum idoso. Tinha uma música também, lindíssima que dizia que tudo ia ficar bem. Sabe, era como se a humanidade se reconhecesse como uma só pela primeira vez. Eram famílias se reencontrando em casas que já não eram mais habitadas. Quero dizer, eram mas não eram. Tu me entende né? Era como se uma esperança teimasse em se enraizar nas pessoas.
_ Puxa vó. Sabia que tu é meu livro de história?
_ Haha! Imagina! Só posso te dizer das coisas que vivi, mas sei tão pouco...
_ Eu quero viver uma epidemia...
_ Que isso Caique! Não diz uma coisa dessas.
_ Não vó, pode ser uma simulação mesmo. Só para saber o que eu faria.
_ É meu filho, talvez a gente precisasse mesmo mais dessas simulações... Se bem que, tem coisas reais tão absurdas que a gente vive, que só fica esperando que alguém dica CORTA! ...
_ Acho que eu entendo o que a vó quer dizer. Às vezes parece que a gente tá num reality né, ou numa fase que tem que passar para chegar no chefão.
_ Quem diria hein, nós até que nos entendemos né? Dá umas palmadinhas no braço dele.
_ Com certeza vó! Se tivesse uma epidemia hoje eu tenho certeza que ia cuidar da senhora. Ah e ia pesquisar logo para achar uma vacina. Aí assim já salvava todo mundo.
_ E zerava o seu jogo - fala isso e dá uma piscadinha.
_ É, hehe, o jogo da vida.
E fala isso já saindo, porque um amigo o chamou online.

Comentários

  1. Oh Marina! Que coisa linda! Que bom que te achei aqui...pude ler tão inspirado tezto, que me toca muito pq sinto tão parecidas emoçoes...
    Ao mesmo tempo revivi tua presença, teu sorriso, enfim muitas coisas boas!!!
    Quero mais!
    Abraço GRANDE!

    ResponderExcluir
  2. Valesca querida! que saudade! Sim, que época bem boa do nosso convívio né? Fico super feliz que o texto tenha te tocado de alguma forma. Ao menos agora que estou com mais tempo a ideia é seguir produzindo.
    Abração!!

    ResponderExcluir
  3. Seu texto me lembrou um livro que sobre avós. Maravilhoso. Bem pequeno mas intenso como tudo de Valter Hugo Mãe.
    "As mais belas coisas do mundo" livro com encadernação primorosa. Vc vai amar!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bacana tia Genina!. Tenho certeza que vou! Estou amando nossas trocas literárias : )

      Excluir
  4. Marina, simplesmente perfeito!!!! Quanta criatividade. Emocionante. Tocaste em pontos nevrálgicos e com muita ternura. Gratidão!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Xaninha obrigada minha irmã! Muito feliz em saber que estás me acompanhando. Acho que ternura é uma boa qualidade para esse diálogo. Abraço com carinho!

      Excluir

Postar um comentário

As mais lidas

Eu estou aqui

Oásis

Escrevo, logo existo