Pacote de sal
Caso você não seja sobrinho da minha tia Alice, um pacote de sal pode não ter valor simbólico algum. Mas, para mim que sou, ao preparar meu almoço hoje e perceber que só tinha um finzinho do pacote, pensei 'Maravilha! Já se foi mais um!'. Por certo não é devido a uma competição insana que minha família faz para saber quem atinge a pressão alta mais rápido. É sim pela expressão tanto ouvida 'Vai dividir um pacote de sal primeiro.' Explico.
Caso você cozinhe, ou seja observador, ou apenas alguém com noção de volume, deve imaginar quanto tempo leva para terminar um pacote de sal. Um quilo, de pitadinha em pitadinha. É muita coisa. Ainda mais se você mora sozinha e não cozinha todos os dias. É daí que surge a genial expressão de quem viveu "um pouquinho" mais que a gente para se referir a um casal recém apaixonado, que acredita que o amor é lindo, que estar junto é lindo, que até os boletos chegando são lindos. 'Vai dividir um pacote de sal primeiro' e está implícita a continuação óbvia 'para ver o quanto dessa lindeza continua'.
Claro que aqui não é um pessimismo contra o amor romântico. É apenas uma visão mais realista de quem sabe que, sim, é ótimo a sensação inicial de conhecer alguém, de ir descobrindo essa pessoa aos poucos, descobrindo a você mesmo, e claro, aos dois juntos, mas que aos poucos essa sensação passa. E fica então a intenção de estar junto. A máxima do pacote de sal apenas expressa a ideia de que um relacionamento é uma escolha. Escolha cotidiana. É que, às vezes, exige fazer força, relevar. Mas, em outras tantas, permite desfrutar também. E, se você consegue, como casal, sobreviver ao seu primeiro pacote de sal, acredite isso é um bom sinal.
Por isso mesmo me recordo como fiquei feliz quando, morando sozinha, terminei o meu primeiro pacote. Óbvio que mandei uma foto para tia Alice, prova de que acreditava em sua sabedoria. Esse pacote de sal finalizado, assim como os outros que vieram depois, representava que fiz a escolha certa ao decidir viver comigo, ao me tolerar a cada dia, a me valorizar também, me tratar bem, aprender a conviver com a minha companhia. Como seria em um relacionamento a dois. E acredito de verdade que a gente se relaciona muito melhor com os outros quando sabe estar consigo próprio. É por isso que cada pacote de sal compartilhado comigo mesma é celebrado nessa casa. Na certeza de que me conheço, compreendo, tolero e acolho cada vez mais, de pacote em pacote de sal.
Adorei. Eu amo estar comigo mesma.
ResponderExcluirÉ bom né?
ExcluirLembramos dessa história! Maravilha ela estar registrada aqui Marina. Beijos!
ResponderExcluirQue legal Vítor. Baita história né? Beijão!
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