Palavras pulsantes


'Carente. Chata. Você só faz pressão. Você me afasta de ti. Não sabe ouvir um não. '
Essas palavras ainda retumbavam nela. Sentia não só na sua memória, nos sons se repetindo várias vezes. Sentia também no estômago, no mal estar de ouvir uma verdade assim tão dura de soco, mas como se fosse algo corriqueiro.

Era tudo aquilo, sabia, sempre soubera. Dessa vez chegou a tentar controlar, fez o que pôde, mas não conseguiu. Era um padrão de comportamento muito antigo, essa carência infantil, que se tornou adolescente e chegou mais amena à vida adulta, mas que ainda estava lá, firme e forte, para surgir a qualquer instante. E o pior é que vinha em um processo legal, estava se curtindo cada vez mais, se conhecendo, se permitindo. Achou que já estava com tudo garantido, que já era dona de si. Ilusão, mera ilusão. Bastou o primeiro aceno, a primeira declaração impensada mas dita, para ela desmoronar de sua frágil torre de autoconhecimento e amor próprio (viver o outro, agradar o outro, tornar-se o outro... Era essa sua sina?).

Pronto. Havia tomado sua decisão e sabia que a levaria a cabo. Prometeu a si mesma que jamais ouviria essas palavras, que não seria mais a mulher neurótica que procura sem parar e que quer 100% de atenção. Sim, odiava receber um não, ser contrariada, ter uma expectativa frustrada. Mas ia lidar com isso, ia engolir e fazer sua poker face. Claro, sem problemas. Imagina, deixamos para uma próxima. Foi até bom você dizer isso, tinha feito outros planos. Ia aprender a usar a mentira social, aquela mentira necessária para se viver melhor. Ia jogar o jogo.

Começou a traçar um plano. Excluiu qualquer vestígio dele em seu celular. Começou a pensar o que faria mais para si, listou possibilidades. Se prometeu que, quando tivesse um crush, para cada 5 mensagens respondidas, seria 1 enviada. Sabia que isso era difícil. Talvez podia começar com 3 para 1. Já era um começo. Ia questionar, sempre. 'Eu não te conheço mas te amo, sinto isso.' Sério? Como? 'Estou legal tenho exame no carro.' Mesmo? Então mostra. 'Estou com a semana lotada.' Precisa me dizer isso por quê? Lembrou de sempre ter em mente a imagem dela jogando sozinha raquete contra a parede. Mas eu tenho muita, muita vontade! Quero vê-lo, quero estar com ele o tempo todo. Foda-se. Faz outra coisa e não pensa. E ouviu novamente ressoar em sua frustração, mágoa e raiva: 'Se tu não fizesse tanta pressão, naturalmente eu iria te procurar.'

Mas sentiu que o som dessas palavras causava agora outro efeito. Agora era diferente. As ouviu, encarou-as por longo tempo, por mais que doesse, até quase esgotar o sentido delas. Então as embrulhou com carinho, as mesmas palavras duras, ainda pulsantes, que ouvira. E as colocou em uma caixa acrílica, transparente e as dispôs em um pedestal. A legenda? O que ainda vai me mudar. As queria analisar de perto, tê-las ali para serem lembradas, vistas. Não com orgulho, mas com avidez. Avidez de quem pega um impulso para ir adiante. De quem pisa em sua própria merda se for preciso para seguir andando. Afinal, sempre soubera que a chave para si estava de fato na força das palavras.

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