Dando nome aos bois

Se o ser humano é um ser social por natureza (o que não é sinônimo de sociável, claro) a comunicação é, por certo, elemento imprescindível para desenvolver essa sua característica. 
Mas e o quanto comunicamos do que queremos de fato comunicar? E as mulheres? Elas teriam um jeito específico de fazer isso? Tipo, um superpoder? Uma habilidade de dizer o não dito, e entender os dois. O texto de Millôr Fernandes que dá nome a esse blog acredita que sim e põe lenha nessa reflexão. 

A vaguidão específica
Millôr Fernandes

"As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica." Richard Gehman

_ Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte. 
_ Junto com as outras?
_ Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia. 
_ Sim senhora. Olha, o homem está aí.
_ Aquele de quando choveu?
_ Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo.
_ Que é que você disse a ele?
_ Eu disse para ele continuar.
_ Ele já começou?
_ Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse.
_ É bom?
_ Mais ou menos. O outro parece mais capaz. 
_ Você trouxe tudo pra cima?
_ Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar até a véspera.
_ Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite.
_ Está bem, vou ver como. 

O Pif-Paf / O Cruzeiro / 1956 

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