Família é foda


Muitos ao lerem esse título provavelmente pensaram 'Hm, deve estar passando por problemas familiares...'. Enquanto outros simplesmente disseram 'Puxa, que bom que ela gosta tanto da família assim.' Isso porque, dependendo da entonação que damos para ele, ele pode ser bom ou ruim. E na verdade é bem isso que acredito que a família seja. Se, ao mesmo tempo é ela que nos acolhe e de onde normalmente temos a nossa base formada, também é ela que nos passa certos traumas e inseguranças. Ela é tanto nosso salvador quanto nosso algoz.

Talvez isso ocorra porque normalmente os familiares são as pessoas mais próximas da gente, com quem temos mais intimidade e de onde acabam vindo os maiores conflitos. Por exemplo, ciúme de irmão ou mesmo a competição entre eles. Demonstra que, é já na família que aprendemos que não vamos ter toda a atenção que gostaríamos ou que não vamos conseguir ser como os outros, e que nem vale a pena tentar. Da mesma forma é a sinceridade de um familiar. Querendo ou não, ele pode te dizer coisas que pessoas "de fora" talvez não poderiam, porque ele está ali, no mesmo lugar que você (na verdade, todo mundo acaba meio sendo ou tendo uma parte do outro dentro da família). Desenvolve-se então essa liberdade de se pensar 'se não for eu a te dizer, não será mais ninguém'. O que pode ser bom ou muito ruim. O quão comum não é a reclamação de que a família se mete demais em nossas vidas? Tudo por essa licença de "ajudar" (ou seria o desejo de ter controle?)

Mas o que será que faz com que a gente queira formar uma família? Não estamos mais nas cavernas, para precisarmos estar em bando e nos proteger uns aos outros. Garantir que cada adulto fica responsável pela sobrevivência de um conjunto de crianças. Sei também que a família monogâmica como a concebemos agora é uma construção histórica e nada mais. Mas porque mesmo assim ela é tão repetida e desejada? Ou, se ela não é, porque essa escolha de não a ter ainda é questionada por muitos?

Essa resposta com certeza virá de uma concepção de mundo, incluindo de uma concepção de ser humano, sentido da vida e de religião. Mas, independente desses fatores, acredito que tenha um específico que talvez perpasse esses todos, que é o fato de que o indivíduo é sim um ser social. Por mais que muitos pensem o contrário, argumento que sua tendência seja de associar-se a outros seres humanos. O que já me leva a qual seria minha definição de família.

Para mim, família é onde tem afeto e cuidado. Percebam que não quer dizer duas pessoas cuidando de outras sejam quantas forem. Essa relação é muito abrangente. Há às vezes uma pessoa apenas que cuida, às vezes há quatro. Há por vezes, inclusive, pessoas que consideramos como alguém da família, mesmo que não sejam. Exatamente pelo vínculo de cuidado e afeto que temos com elas. Há, inclusive cada vez mais, pessoas que consideram seu pet como um membro da família. Não gosto da ideia de ser mãe ou pai de bicho, mesmo que reconheça que ali haja muito carinho e cuidado. Mas, claro, eles cumprem seu papel. Principalmente caso não hajam filhos humanos. No entanto, temos que convir que a interação e a responsabilidade são distintas, independente de o afeto ser grande.

Na verdade advogo muito a favor de se conceituar cada vez menos o que seja família. Assim como você se autodenomina em relação a etnia, você também determina quem faz parte de seu núcleo próximo de carinho e cuidado. E quanto maior ele for melhor. Porque não há dúvida que isso é algo que todos precisamos. Quando Jesus decide nos aconselhar a amar ao irmão, ele sabia que seria mais fácil amar alguém que estivesse próximo de nós, que considerássemos como alguém da família. Seja essa uma pessoa com relação de sangue conosco ou não. O que importa é o vínculo. É por isso que sim, por mais que às vezes ela seja foda, família, no fim das contas, é mesmo foda.

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