Ms Buterfly


Uma mariposa na parede. Uma mariposa na parede enquanto se vê TV. Negra. Parada. Os episódios passando. E ela ali. Os olhos vão da tela para ela, mesmo que não queiram. É automático. Perigo.
Perigo? Por ser negra? Como tão bem foi colocado em seu imaginário? Por fazer um barulho como aquele que você ouve dentro de si, mesmo que não seja audível de fato?
Pressentimento. Ela vai buscar a luz. Mas chegando lá vai se debater. Debater e fazer barulho. Como quem frita. Então porque busca a luz? Por que se deixa atrair? Não. A pergunta não é essa. A pergunta é: por que ela te move? Qual a diferença para uma borboleta? A leveza, o rufar de asas durante o dia, virando um bater pesado durante a noite. O veludo das asas que mesmo sendo veludo não traz maciez. As asas batendo no meu peito, há tantos anos. O barulho que não cessa. Eu, na parede, esperando, enquanto ainda não estou me debatendo na luz. A luz que eu sei que vai me queimar. A luz que mostra que não sou borboleta. O aviso negro mas luminoso. Na parede. Parado. À espera. Será que ela sabe o que espera? É um inseto. Dorme. Tu gostaria que ela esperasse. Tem gozo de vê-la se debater contra a luz. Não estás sozinha. Ela também se debate. Mas seria da sua natureza? É essa sua natureza? Sempre sonhando em ser borboleta. Em asas alveoladas de leveza. Bela. Irradia no sol. Mas estás ali. Presa na parede. Negra. Presa na parede a olhar a luz.

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