Vai trabalhar meu filho!


Muito de quem somos ou da nossa relação com o mundo é mediada pelo trabalho. Desde criança quando nos perguntam o que seremos quando maiores, a resposta esperada por certo não é "Grande" ou "Inteligente" ou ainda "pai/mãe". Ou quando alguém pede nossa descrição, já adultos, e simplesmente respondemos com nossa profissão. Não é tão mais fácil? Não ter que se questionar de fato quem somos, para já respondermos com o que trabalhamos? Mas, na verdade, não acredito que esteja muito distante da realidade. No Brasil, a jornada de trabalho é de 40h semanais. Se somos autônomos ou trabalhamos em casa, provavelmente trabalhamos muito mais. Então acabamos mesmo achando que somos nosso trabalho. E, claro, em comparação, aqueles que não têm um trabalho fixo remunerado são ninguém.

A verdade é que o quanto trabalhamos e para que trabalhamos estão diretamente relacionados. O quanto trabalhamos depende se o fazemos para ganhar 1 milhão ou se trabalhamos para pagar as contas do fim do mês (e não é irônico que, aqueles que mais trabalham, normalmente estão mais longe do milhão...?). Trabalhamos para sermos bem vistos socialmente. Para sairmos do sofá todos os dias pela manhã - ou de noite. Para deixarmos uma herança para nossos filhos. A meu ver, o interessante nessa relação é que ela é muito cultural, não apenas o valor dado ao trabalho mas ao passar trabalho. A mostrar que estamos fazendo a nossa parte mas que é sofrido, árduo, para poder ter valor. É essa ideia do trabalho como algo penoso, que nos faz querer ansiar por cada feriado, que foi dada por castigo a Adão e Eva por comerem o fruto proibido. Talvez venha daí a expressão que fazer algo difícil, demorado é "trabalhoso" ou que você "passou trabalho".

Em contrapartida, está muito em voga uma máxima de que se você gosta do que faz não trabalhará um dia sequer de sua vida. Ela é muito poética, claro, motivacional, por que não? Mas é também  bastante perigosa. Se nem estou trabalhando então posso dobrar o turno, trabalhar 60 horas talvez, não ter férias... Não está tão bom? Não sou grande entendedora do budismo mas me parece que ele tem um preceito nessa direção da felicidade no trabalho mas de modo um pouco mais profundo. A ideia de que devemos dar valor a qualquer tipo de trabalho, mesmo os menos desejados. Então, se eu estou limpando o banheiro da minha casa, faço isso com alegria, porque é um trabalho necessário para mim e para quem mora comigo. E não há dúvida que os dois princípios trazem consigo a grande verdade de que, tudo aquilo que fazemos com vontade, fazemos melhor.

Seguindo na mesma linha das religiões, na doutrina espírita existe igualmente uma máxima do trabalho. Segundo essa doutrina, o espírito já desencarnado continuaria trabalhando, não porque precise de bens materiais no plano espiritual, mas porque tem prazer em saber-se útil. E, quanto mais ele trabalharia ajudando a nós, encarnados, mais ele evoluiria (a questão talvez seja o quanto estaríamos evoluídos aqui na terra para tentar seguir esse exemplo).

Importante ponderar dessas perspectivas, finalmente, é que, mesmo se o trabalho for fundamental ao homem o ócio também o é. Eu só consigo criar algo novo se eu tenho o tempo do vazio, do nada, das não-tarefas. É isso a meditação. Um momento de estar no presente, sem compromissos ou planos de passado e de futuro. Se eu ainda questionava esse ócio criativo, essa quarentena veio me mostrar o contrário. Impressionante como tive mais ideias do que costumava no meu cotidiano de trabalho presencial. E, que fique claro, a maioria das ideias relacionadas ao trabalho mesmo. Esse tempo sem hora marcada, sem rotina laboral rígida me permitiu ler mais, pintar, desenvolver projetos e escrever, algo que eu queria há tempos. Quem diria que a fórmula para trabalhar mais, talvez fosse mesmo trabalhar menos.

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