Bem-vindos à Hollywood!
Há algumas semanas assisti
a uma série por recomendação de dois queridos amigos. É a série Hollywood, do
Netflix. Já tinha visto sua chamada algumas vezes mas não me interessava porque
achava que de fato era sobre a vida Hollywoodiana. O que eu não sabia é que se
tratava sobre alguns outcasts (e aqui a
expressão em inglês é precisíssima, porque realmente diz daqueles que estão
fora do cast, do elenco), lê-se negros,
gays, asiáticos, e afins, fizeram uma produção cinematográfica contra todas as
probabilidades. E é em descrevendo a realidade de um Estados Unidos pós-II
guerra que a série mostra outra realidade que mexeu comigo. Todo domingo, um dos caras do
grande escalão da indústria fazia uma festa, principalmente com o
intuito de que os gays pudessem ser eles mesmos livremente, sem correr o risco
de serem presos por atentado à moral e aos bons costumes.
Claro que eu sabia
que isso acontece. Assim como sei que ainda hoje, toda vez que um casal gay
troca algum tipo de afeto publicamente provavelmente faz com medo, com receio,
não apenas de julgamento, mas de reações mais graves como a violência. Mas não
sei porque dessa vez essa consciência mexeu comigo de um modo diferente. Era
quase como se eu estivesse lá, na festa também. Na expectativa que os outros
convidados fossem embora, para que enfim pudesse trocar uma carícia com alguém,
receber um carinho sem ser julgada ou linchada. Também foi a primeira vez que
tenho consciência de ter visto dois homens se beijando e achar essa uma cena
envolvente, talvez até excitante. E por que isso é um bom sinal? Porque mostra
que o choque que tive ao ver semelhante troca de afeto pela primeira vez deu
lugar a uma reação de normalidade. Porque agora já estou acostumada (como tive
também que me acostumar, quando criança, descobri que casais hétero faziam o
mesmo).
O que me impressiona
é como a sociedade tem essa capacidade incrível de dizer para gente que estamos
errados, que somos errados. Que somos errados por sermos simplesmente quem
somos. E faz com que você passe a vida se sentindo deslocado. Se sentindo que não
pertence a lugar nenhum, a não ser que esteja com pessoas exatamente iguais a
você. E ela faz isso de um jeito tão eficaz. Desde os coleguinhas da escola que
se reúnem para rir de alguém que é diferente, acreditando assim que se
fortalecem, até os olhares julgadores dos adultos, as ofertas de emprego que
não são para o seu perfil, as casas em que você não é convidado, as piadas que
você tem que ouvir sorrindo como se houvesse graça (ou contrariando se estiver
disposto ao embate).
E talvez venha daí a
expressão, na minha opinião, muito precisa: "Sair do armário." Temos
aqui algumas possibilidades. Que essa pessoa foi colocada lá, para ser
escondida, como os loucos do sótão, e garantir que ninguém mais a veja, a
aberração da família. Que a própria pessoa quis entrar lá, por medo, para estar
protegida, para talvez poder chorar sozinha ou ler um livro, sei lá, sem que
ninguém a incomodasse. E tem também uma possibilidade utópica, que espero que
seja a que já começamos a construir e que vamos continuar ao longo do tempo
(percebo, por exemplo, que meus alunos do ensino médio estão muito mais
avançados nessas questões do que a minha geração). Essa pessoa entrou lá porque
tinha sede de possibilidades. Viu todo aquele armário e não tinha certeza de
que roupa escolher. Então decidiu mergulhar nele, como em uma arara de uma peça
teatral, experimentando as roupas e adereços que quisesse, para então abrir
suas portas e sair de lá inteira, deslumbrante, dona do seu figurino e do que
ele quisesse representar. E esse armário nunca foi para si uma prisão.
Sei que essa
terceira possibilidade ainda está distante, mas é exatamente por isso que a
representatividade é importante. Já ouvi algumas pessoas (e infelizmente não
foram poucas), dizendo que a Globo tinha virado uma emissora que só mostrava
gay nos últimos tempos e que, obviamente, isso era um absurdo. Agora, o que a
pessoa não parava para analisar é que o "só" dela queria dizer na verdade que a cada novela, um entre os dez casais representados seria de um
relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Se fosse de fato "só",
teríamos então dez entre dez e, ficaríamos impressionados quando víssemos um
homem e uma mulher se beijando na tela da TV. É que acredito que, como segundo o estereótipo do dono de venda que só quer lucrar, às vezes seja bom saber fazer
conta só como nos convém.
Sei que ainda temos
um longo caminho para caminhar, para ver um filme ou uma novela em que as
pessoas apenas sejam elas mesmas, na sua natural diversidade, de sexualidade,
de raça, seja do que for. E que, se isso
não acontecer, aí sim a gente ache estranho. Ache estranho apenas um tipo de
representação, um filme todo branco, uma novela toda hétero (ou toda negra,
toda homo, como se cada um estivesse em seu gueto). E isso não tem nada a ver
com ser politicamente correto. Porque ser como somos não é nem certo nem
errado. É apenas o que é. Mas compreender isso, achar isso belo inclusive, aí
sim, deveria ser considerado o nosso certo. Fica o meu desejo por telas de fato
com mais traços.
Quando se trata de preconceito, nada na sociedade é espontâneo
ResponderExcluirEste é um caminho a ser aberto com muita luta.
Bom que não é uma luta sozinha. Há sim muitos nessa batalha.
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