Solteira procura... paz.


É isso. Você chegou no fim da linha. Está com 35 anos e é solteira. Solteirona, diga-se de passagem, não solteirão. Não tem filhos, não tem marido. Tem um gato e uma cachorra. Nada mais lhe resta. Pode se atirar. Pode desistir. Até os algoritmos de suas máquinas já sabem disso (talvez leram pesquisa vinho + passagem para 1 + comida para gato = solteira). Eles lhe recomendam sites de encontros, além de infames vídeos sobre como conquistar seu homem. Suas amigas já não lhe convidam mais para festas de casamento. Agora já são os chás de fraldas, festa de 1 aninho, ou mais. Ah sim, e o tão importante chá de revelação, como esquecer. E você aí, solteira.

Não seja por isso. A busca começa. Primeiro pelos amigos de amigas: casados, gays ou rapazes que ainda acham mais confortável viver com a mãe. Muito bem, próximo passo, baladas. Pois então... Você não faz o tipo balada. Está lá deslocada e todos percebem. Tenta fazer o papel da sedutora (sim! Você viu um dos vídeos: keep your voice low. Look him in the eyes. Now the mouth. It doesn't matter what you are saying, just do this and he will be yours). Certamente que não funciona e você volta para casa frustrada. Finalmente a opção da sua geração mesmo: aplicativos de encontro. Por que não? Várias opções, como um menu. Parece fácil, não? Há apenas uma questão, importante questão, a ser considerada. Objetivos. Você está lá para constituir família. Digamos que, certamente, essa não é a primeira opção do aplicativo (é como naquele antigo comercial em que um cego é levado pelo seu cão guia para o açougue, onde pergunta 'vocês tem CDs de jazz?', achando que está na loja de discos).

Muito bem. Então se não é com amigos, se não é em baladas, se não é em aplicativos, então onde seria que se encontra alguém? Já sei, faça cursos, vá há lugares diferentes, aumente sua chance de conhecer alguém de modo espontâneo. E lá está você, de aula de origami a dança afro. Só não faz curso de tiro porque não gosta de violência. Agenda cheia. Corre de um compromisso para outro. Adiantou? A impressão que tem é que na mesma velocidade os homens correm de você.

É isso! Já sei. Você está muito ansiosa. Quer demais. As pessoas sentem. Só vai dar certo quando parar de querer (revirada de olhos da sua parte). Então, o segredo é fingir para si mesma que o tempo não está passando? Que seus óvulos não estão ficando velhos? Que você não está ficando cada vez mais cheia de manias para dividir a vida com alguém. É isso? Barbada. Peraí que estou achando o interruptor. Só um pouquinho... Pera... Pronto! Desligado. Não quero mais ninguém. Ih, nem me importo. Amo ser solteira. Curtição, que maravilha! A vida que mais quis desde pequena. Se quero alguém? Ah, só se aparecer... Mas não estou procurando. Sério!

Apareceu alguém. Opa. Falou contigo. Deu oi e algumas frases. Parece interessado. Preenche alguns pré-requisitos. Pronto! É esse. O homem de sua vida. Pai de seus filhos. Como foi fácil achar! E olha que nem tava procurando. Espera, tu não conhece ele há uma semana...? Ah, mas eu sempre soube que ia ser assim. Arrebatador. Pra que esperar. A vida é curta, bebê. Três semanas depois... o "amor" já virou pó. Sorte que você não estava buscando, certo?

Até que um dia genuinamente você cansa. Cansa dessa busca por alguém que te complete. Complete... Por acaso você é oca, ou faltam membros, ou órgãos? Como assim completar? E aí percebe que este é o erro e não você. Que a busca que você faz, na verdade, é por si própria: o que gosta, o que desgosta, o que acha que vale a pena tolerar, onde quer ir, quais suas prioridades, onde gastar seu dinheiro, enfim, escolhas que são suas e não divididas. E nesse processo, acaba, sem querer, genuinamente sem procurar, encontrando outra pessoa que também está na busca de si. E percebem que estar junto é agradável, que dá certo, que é naturalmente confortável. E você se espanta ao perceber que talvez todos tivessem razão. Não quer nem pensar muito, com medo de descobrir que não é real. Mas aí percebe que tanto faz. Que se essa relação não der certo virá outra, e talvez outra, e essa é a vida. Afinal, já não é mais a princesa em um frágil castelo de cartas, a espera de seu  verdadeiro príncipe ou cavaleiro para lhe resgatar. Já saiu da torre há algum tempo, não está em perigo, e tem um mundo todo a explorar. Solita ou acompanhada, é uma questão apenas de número.

*P.S. - Santo Antônio, esse ano pode ficar de boa. Só quero mesmo é paz.

Comentários

Postar um comentário

As mais lidas

Eu estou aqui

Oásis

Escrevo, logo existo