Tá contigo!
Outra noite tive um
sonho que me fez muito bem. Particularmente nessa pandemia (e conversei com
alguns amigos que me disseram o mesmo) tenho sonhado mais que o normal. Nesse
sonho que tive, sonhei que chegava de viagem e ia direto na casa de uma tia
muito querida, realmente um bom porto de afeto. Chegando lá, no terreno em que
a casa deveria estar havia apenas uma obra acontecendo, e a estrutura de uma
casa sendo construída, apenas com sua base pronta. Depois da frustração
inicial, logo percebi que havia ido para o endereço errado e, quando dei por
mim, estava em um apartamento amplo, com boa vista e rodeada pelas minhas
primas e pelas minhas irmãs, todas em uma interação bastante próxima, como
sempre tivemos.
Gosto muito de
interpretações (talvez por isso minha relação tão próxima com a literatura).
Acredito que se o significado está no que se lê, ele está também e talvez mais
em quem lê. É claro que em sonhos,
bastante da interpretação vem de como nos sentimos, da sensação advinda dos
fatos meio truncados e borrados que vivenciamos e de sua racionalização. Dito
isso, minha interpretação para o sonho mencionado dizia respeito a um rito de
passagem. Um rito de passagem geracional. Lembra a mesa dos pequenos que você
fazia parte em jantares em família? Aquela mesa só das crianças? E lembra
também a sua sensação quando pôde estar na mesa dos adultos, ouvindo o que
conversavam e se preocupando em comer direito pela primeira vez? No entanto,
acredito que a minha sensação vá um pouco adiante no tempo.
A sensação que eu
tinha quando acordei dizia mais respeito a referências. Me pergunto, quando
nossos pais e outros adultos da mesma geração (tios, tias, enfim) deixam de ser
nossa referência primordial e passam a assumir outro papel? Certamente não é
uma questão cronológica, do tipo em idade X isso acontece. Também não diz
respeito ao fato de você ter filhos ou não, porque você pode nunca tê-los, por
exemplo. Imagino que seja algo que aconteça em dois sentidos. Em um, a geração
mais velha vai muitas vezes deixando de trabalhar fora (se for o caso), vai
ficando mais cansada, vai vendo que já cumpriu sua função (não que haja
"UMA" grande função). No outro, a geração mais nova vem com vontade,
estabelecendo seus gostos e preferências e realizando ações, tomando a frente.
Diante disso, me
permito uma análise de boteco em relação a mim mesma. Sempre me colocaram, e eu
sempre me deixei colocar, muito no papel de caçula que sou: mimos, proteções,
inseguranças. Então, para mim, estar nesse novo papel em que você talvez possa ser
a referência (por que não?) é algo que realmente exige uma mudança de alguns
paradigmas. E talvez por isso o sonho tenha sido tão simbólico para mim. Se não
ter a casa da minha tia para chegar e tomar um cafezinho trouxe angústia,
percebam que o espaço ali não estava vazio.
Havia a base de uma casa em construção. E isso é certamente
representativo. Demonstra que essa geração, fez o começo, deu a estrutura em
que eu podia construir uma casa (aqui uma metáfora para mim mesma). E uma
fundação muito sólida, diga-se de passagem. Eu lembro, logo que mudei de
cidade, fui morar sozinha e comecei a trabalhar em um emprego novo, como
constantemente tinha consciência e agradecia por ver que meus pais tinham me
dado valores nos quais eu podia confiar. Eles eram/são a minha base sólida.
E aí vem a segunda
parte do sonho. Que era a sensação boa de estar com a minha geração. Porque se
você se sente inseguro de não ter mais as referências "adultas"
(agora o adulto é você), você também se sente com um certo orgulho porque
passaram o bastão para você. Sinal de que confiam em suas decisões. E sabe que
o que eu sentia enquanto estava com as mulheres que eram como eu, não era o
peso da responsabilidade ou, de jeito algum, alguma sensação de competição. Era
uma sensação de pertencimento, que estávamos ali juntas, aproveitando,
colaborando umas com as outras. E para mim foi natural pegar aquele bastão,
principalmente porque eu sabia que não estava sozinha. Foi então que a frase
título dessa crônica - que muita vezes a gente brinca, quando tem que tomar
conta de uma criança - de repente mudou. Para aquele grupo de mulheres que eu
tão bem conheço e que há tantos anos convivemos , certamente é "Tá
conosco!".
Lembro-me quando minha mãe me perguntou pela primeira vez quantos pães ela deveria comprar na padaria. Oi? Como assim? Eu quem faço essa pergunta e você responde!! Pega esse bastão minha filha!! Adorei o texto Má!!! Bjosss
ResponderExcluirQue bacana Adri! Como a gente tem marcos assim né? Acho essas questões da vida super interessantes. Que gostoso que estás lendo. Beijão
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