Curtimo-nos


Para quem me conhece um pouco mais sabe que sou daquele tipo de pessoa com alma velha. Isso provavelmente explique minha relação um tanto unilateral com a tecnologia (é apenas ela quem oferece, e eu pouco retribuo quase sem saber usar seus atributos). Dito isso, talvez a minha percepção desta crônica não lhe diga muito, ainda mais se você é alguém que nasceu no mundo da TV Globinho e não do Show da Xuxa, ou quem sabe da Vila Sésamo. Mas a mim, certamente foi fato de no mínimo curiosidade.

Nos últimos anos, principalmente depois da última eleição presidencial, resolvi migrar do Facebook para o Instagram. Não desfiz minha conta, mas julguei que as fotos e menos linhas desta mídia social a tornariam um ambiente mais seguro a minha paz de espírito. E foi fato. Mas algo que ela também trouxe foi a oportunidade de seguir famosos que eu admirasse. E isso é algo novo para mim. Você se sente próximo deles, acompanhando seu dia-a-dia, vendo lives, estando quase no sofá da sua casa. E trouxe algo mais impressionante, que é o que chamou minha atenção.

Pode parecer banal, mas sempre me causa um certo frisson, por assim dizer, quando eu vejo uma pessoa famosa que eu sigo curtindo outra pessoa famosa que eu também sigo. É como se eles fossem amigos entre si e eu, por contrapartida, por estar ali, pudesse ser também. Não sei se consigo explicar a sensação, mas é como se nessa rede bizarra de contatos eu também fizesse parte, como se fosse alguém com quem eles pudessem interagir (e faço parte, na verdade, pois estou lá). Mas mais engraçado que essa minha percepção é o que a motiva. Acredito que, no fundo, todo mundo tenha uma certa sede de ser reconhecido, de ser notado. E é isso que "conviver" com famosos talvez desperte em nós. A sede de talvez compartilhar um pouco de sua fama (nas devidas proporções, claro).

Nem preciso ir muito longe, na verdade, nessa minha reflexão. Esse blog é um exemplo disso. Sempre escrevi apenas para mim, para alguns membros da família ou amigos próximos para quem mostrava meus textos. E agora, decidi que escreveria para quem quisesse ler. E certamente faço isso em busca de notoriedade, de aceitação. E me satisfaço com feedback não apenas daqueles que já torciam por mim como de pessoas que há muito não falava e que passam a me escrever dizendo que, ao me lerem, é como se estivessem conversando comigo. E isso com certeza é um rico "like", pois, mesmo que meus textos possam não ser esteticamente diferenciados, são um retrato de mim mesma (algo que eu sempre busquei).

Mas, voltando para a questão dos famosos, acredito que esperamos essa aceitação também de nossos próprios seguidores. Tanto que o Instagram tirou a contagem de curtidas para evitar a neura de querer sempre mais. Na verdade, vou um pouco mais além. Nem são apenas os coraçõezinhos que podem ser o problema, ou  as visualizações de stories, mas por vezes a nossa própria necessidade de achar que tudo que fazemos é digno de uma postagem. Não temos mais pratos que não esfriem a espera da foto. Paramos uma boa conversa para fazer uma pose, ou então deixamos de desfrutar de uma linda paisagem porque tentamos insistentemente enquadrá-la no melhor ângulo. É como se vivêssemos mais na tela que na vida. Bom, mas isso, repito, pode ser a velha Marina falando em mim, aquela que sempre prefere o presencial, a sinceridade do olho no olho, o convívio genuíno. Nem que seja para depois poder fazer uma crônica sobre isso.

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