Férias em casa, e aí?


Certamente o título dessa crônica é white people's problem (problema de pessoa branca). Tenho consciência de onde falo. Mulher, hetero, branca, classe social abonada. É claro que estou entre a pequena parcela da população que consegue viajar nas férias, que tem essa capacidade financeira. E nem me refiro a ir a Cancun. Falo de sair mesmo, ir visitar parentes, dar um passeio num lugar de natureza, dar uma arejada. Mas, como tudo neste ano, nossas possibilidades passaram a ser outras.

Viajar em plena pandemia por certo é um risco. Um risco para si e um risco para os outros. Então, resta-nos o aconchego do lar - como já vem sendo desde março. E não é que não gostemos de nossas casas. Pelo contrário. Certamente somos gratos por tê-las e nos sentimos bem nelas. A questão é, será que conseguimos descansar com o computador ali, a disposição, e junto com ele talvez a cobrança de, "já que eu estou aqui mesmo, por que não adiantar alguma coisa?". Para quem trabalhou em home office sabe o quanto a pressão de estar sempre logado pode ser estressante.

Além disso, a possibilidade de viajar traz uma coisa que estar em casa nem sempre permite: sair da rotina. Fazemos coisas diferentes, vemos lugares novos, conhecemos pessoas, comemos outras comidas. Esquecemos horário. Ligamos nosso modo off das ocupações e relaxamos. E talvez o nosso exercício esse ano seja exatamente esse. Conseguir, quando não se está trabalhando, criar um ambiente também descontraído mesmo que familiar, buscar coisas novas para fazer e, quem sabe, esperar menos, aprender a se contentar com menos. Fazer menos planos também.

A esse respeito, venho refletindo bastante sobre o que essa pandemia vai modificar em nós e tenho conversado e observado algumas pessoas ao meu redor. Sei que pessimistas dirão que não mudará nada, mas gosto de pensar diferente. Conheço muita gente que passou a olhar um pouco mais para o outro. Conheço outros que resolveram mudar suas vidas, ressignificá-las mesmo. Porque, e isso ninguém pode questionar, se houve algo que a pandemia nos deu foi tempo para pensar e tempo para olhar para nós mesmos. Quem sou? O que gosto? Gosto de onde moro? O que eu faria se minha vida acabasse semana que vem?

E quando fazemos esse exercício de receber o que a vida traz, analisar e tentar lidar com isso do modo mais positivo possível, estamos mais próximos da felicidade. E não me refiro aquela felicidade dos livros de autoajuda, do pote de ouro no fim do arco-íris. Falo das pequenas felicidades, da alegria de ler um livro novo, conversar com um amigo que há muito não falava, experimentar uma receita diferente, descobrir um hobby, organizar aquela gaveta que há tanto lhe incomoda, fazer as unhas para ficar em casa, fazer festa de aniversário para o boneco do filho, para o cachorro que adotaram. Na verdade, mais que o lugar onde a gente está, nossa atitude é que faz maior diferença. E, certamente, quando a pandemia passar, nossa próxima viagem, à cidade vizinha que seja, terá um gosto muito mais especial.

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