Gostoso como um abraço
Não sei se você já
teve a oportunidade de cumprimentar algum estrangeiro que não fosse de origem
latina. Certamente é uma situação culturalmente carregada, em que, o brasileiro
abre os braços a espera de acolher o estrangeiro - mesmo que o esteja vendo pela
primeira vez - enquanto este, estende uma mão firme que busca evitar mergulhar
no abraço que lhe é oferecido. E nisso vão alguns segundos de negociação
cultural, até que o cumprimento chegue num acordo. Claro que não podemos
afirmar que todo brasileiro seja assim afetivo, mas, como um todo, essa é uma
característica nossa. E o que dizer agora então, que não apenas não estamos
cumprimentando desconhecidos, como nem mesmo nossos amigos? Encontramos alguém
que gostamos, que naturalmente daríamos um abraço e não sabemos mais o que
fazer. Quase chegamos a por as mãos no bolso, para ter certeza que ficarão lá e
não cairão na tentação de envolver o outro. E fica como se fosse aquele vácuo,
a estranheza de estar faltando algo.
A força de um abraço
é tão potente que há inclusive terapias que o utilizem como meio de cura. Pensa
quando passamos muito tempo sem ver alguém que gostamos, que outra saída temos
para demonstrar afeto que não um longo e caloroso abraço? Não recordo bem, mas
acredito que seja uma música que diz que existe o abraço casa, aquele abraço em
que você pode morar dentro, em que se sente abrigado, acolhido. E a troca no
abraço é mútua. No abraço verdadeiro, peito com peito, você não apenas dá como
recebe amor.
Mas agora, isolados
e temendo uns aos outros - sim, porque tememos o vírus, mas não sabemos com
quem ele está - esta prática de abraçar, para quem é consciente, se tornou
impensável. E qual o estrago emocional que isso pode causar? O quão sozinhos
nos sentimos? E essa mudança de hábitos,
já há mais de 4 meses, talvez torne-se algo que fique conosco. Será que, quando
tudo isso passar, deixaremos de abraçar tanto? Sei que certamente eu vou pensar
duas vezes antes de abraçar alguém que eu ainda não conheça. Talvez a COVID
acabe tornando nossos cumprimentos menos latinos. Guardaremos nossos abraços
para pessoas de nosso convívio, pessoas íntimas. O que muitos podem dizer que
faz mais sentido, inclusive.
E essa é uma mudança
que pode vir com outras que também se fizeram necessárias. Sorrirmos mais com
os olhos, por exemplo. Ou demonstrar afeto apenas com um sorriso. Ou com as
mãos unidas na frente do corpo, em forma de namastê. Acho esse gesto tão belo, tão
respeitoso, que gostaria de mantê-lo mesmo quando já puder distribuir abraços
por aí. E claro, temos também as palavras. Agora que estamos sem o toque, temos
que acreditar mais na sinceridade das palavras ditas ou escritas. Mas será que
elas expressam o que o corpo não consegue sentir? Já mais de uma vez na
quarentena me dei um abraço. Abraço carinhoso, acolhedor, de "vai ficar
tudo bem". E passei para mim todo amor que sentia, todo amor guardado para
quando tudo isso passar. Taí outra prática que talvez valha manter mesmo
pós-pandemia.
Sem comentários, nota 10 !!!!!
ResponderExcluir: )
ResponderExcluirCheguei!!
ResponderExcluirSeu abraço é certamente um abraço casa!
Também gostaria que o a saudação do namastê fosse mais comum em nosso meio, compartilho da sua opinião de que é um gesto muiot bonito e respeitoso.
Delícia Lívia querida te ler por aqui. Vamos instituir o namastê pós-pandemia. : )
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