Aja mas não agite-se


Outro dia ganhei um elogio. Fui chamada de ativa. Pode parecer banal, eu sei. E daí, que você se movimenta? Mas esse elogio mexeu lá comigo criança, com a caçula que não conseguia acompanhar as brincadeiras, com a leitora que não saia de sua cadeira, com a jogadora que não tinha habilidade. Em minha família, ser considerado alguém lerdo sempre fora algo negativo. Somos pessoas que fazem coisas. Somos dinâmicos. Somos agitados.

E o movimento é algo interessante. Acompanhamos com dedicada atenção uma criança descobrindo seu corpo, seu peso, seu balanço, como ela se equilibra, como se locomove. E nunca paramos para pensar que talvez esse não seja um processo tão fácil. Como já diziam as leis da física elementar, vencer a inércia é sim algo muito difícil. Mas, em contrapartida, quando o corpo se coloca em movimento sua tendência é seguir. A questão toda seria apenas começar.

Depois de começar, a sensação de realizar coisas, de fazer atividades, é realmente muito prazerosa. Te dá uma ideia de que você consegue, de que algo foi cumprido. Para o corpo principalmente. Quanto mais atividades ele faz, mais apto a fazer outras ele estará. E é maravilhoso ter uma vida em que você se põe em movimento, principalmente se isso for algo que lhe traga bem-estar. Descobrir atividades que goste fazem toda a diferença, seja dançar, fazer yoga, caminhar ao ar livre, até limpar a casa ouvindo uma música bem animada.

O que devemos cuidar, isso sim, é se toda essa nossa movimentação, esse estar sempre fazendo coisas é um sinal de que não queremos parar, de que não conseguimos ficar sem fazer nada. Basta pensar em uma solução de água com areia. Enquanto a agitamos, a areia fica toda misturada à água. Só conseguimos vê-la de fato, quando paramos de mexer e a areia se assenta no fundo. O que talvez a gente não consegue/quer ver quando deixamos de nos agitar? Às vezes o que precisa assentar em nossa alma não seja algo que queiramos lidar e é exatamente por isso que evitamos ver, que não deixamos parar.

Com a mente é exatamente a mesma coisa. Um app de meditação que eu uso compara por vezes nossa mente com um macaco agitado, indo de um lado para o outro, de galho em galho, de pensamento em pensamento. E parece difícil acalmá-lo. Parece que ao fazermos isso lhe damos ainda mais galhos para pular. Mas, como tudo na vida, é um exercício. O treino de conseguir aquietar-se e viver o presente. E nesse caso, o exercício em movimento pode inclusive ajudar. Ajudar a sairmos da rede emaranhada que muitas vezes nosso pensamento engendra. E aí vivemos o agora. Não remoemos ou não planejamos, apenas somos, apenas estamos. E cuidamos para que nossas ações sejam sim ativas, mas não sejam nuvem de fumaça. Por que é ótimo movimentar-se, mas também é maravilhoso conseguir serenar.

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