Elegância
É fácil confundir
elegância com ser chique, usar roupas caras ou ter dinheiro. Em frases como
"Elegância vem de berço" temos junto a ideia de que a elegância não
apenas tem nome, como certamente tem sobrenome também. Graças ao poder
imagético da televisão, imaginamos jantares servidos por serviçais, pessoas
vestidas no seu mais fino traje, falando baixo e apenas sorrindo (quer algo
mais deselegante do que rir alto e chamar atenção?).
Para mim, por muitos
anos, o sinônimo de elegância era uma antiga professora da faculdade, uma
senhora petit, que usava um lenço nos ombros
e escrevia no quadro, sem que esse lenço sequer se movimentasse. Com que
graça ela fazia isso! E nem preciso dizer que sua voz era também comportada
como seu lenço. Outro representante na
minha lista da elegância era andar de salto com maestria. Não rebolando, não
andando feito pato, apenas deslizando. Não importa qual fosse a altura do salto
ou sua finura.
Tempo vai, tempo
vem, nossos padrões vão também se modificando. É possível que, nesse quesito,
muito de minha personalidade possa ter influenciado. Dona de uma voz bastante potente, de gaitadas
frouxas e abraços apertados, nunca achei que me enquadrasse no princípio da
elegância. Mas acontece que comecei a perceber que ser elegante na verdade,
pouco diz respeito ao seu modo de vestir ou ao tom da sua voz. Ser elegante é
adaptar-se. É sentir-se à vontade em qualquer situação, seja ela da classe mais
alta à paupérrima. Na verdade, mais importante ainda, é também deixar quem está a sua
volta à vontade, acolhido, pertencendo. E essas características são
muito mais valiosas que o valor de qualquer roupa cara.
Buscando exemplos
práticos, a pessoa elegante é aquela que, quando recebe alguém, tem o cuidado
de adaptar sua refeição às restrições alimentares dos convidados (na medida do
possível, claro). Pense como é bom você ser intolerante a lactose e seu prato vir
sem o molho branco? Ou um vegetariano que ao invés de apenas comer a salada tem
um suflê de legumes feito para si? Isso sem que pedissem, claro. Ser elegante é
saber dizer para alguém que tem algo em seu dente, sem que essa pessoa se sinta
constrangida, mas também sem que passe vergonha mostrando seu almoço no
sorriso. Ser elegante é garantir sempre uma pequena gorjeta para quem presta
serviço para você, algo que não estava combinado mas que não pese no seu
orçamento, e fazer isso sem ser de modo ostensivo, para que a pessoa apenas se
sinta valorizada e não humilhada.
Do mesmo modo,
também podemos ser amigos elegantes. Na maneira como dizemos algo que seja
importante e duro para um amigo, de forma que ele sinta que estamos cuidando e
não julgando. Ou no próprio carinho que temos com eles. Em fazer um pequeno
agrado sem que seja seu aniversário. Num presente cuidadoso que se escolha,
porque você sabia que era a cara daquele amigo. Ou simplesmente em ouvir. Há
algo mais elegante do que ouvir atentamente alguém? No mundo de hoje estamos
tão cegados por nossos próprios egos e mazelas, queremos tanto ter voz, que ter
alguém que nos ouça com carinho e atenção, se importando de fato com o que
dizemos, é por certo algo de muito valor. Pensando nos tempos de agora, se é para
existir um novo normal, que seja o da elegância. Não de máscaras que combinam
com sua roupa, mas elegância de cuidado, de atenção, de empatia, de zelo
genuíno pelo bem estar do outro.
Texto extremamente fino, elegante e sincero.😉
ResponderExcluirAmo!
ExcluirMarina, eu tenho lido seus textos e eles são tão gostosos! Saudades! Vc é uma ótima escritora!
ResponderExcluirQuerida Re, obrigada! Fico muito feliz com seu carinho.
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