Aos dentes


Nossa relação com os dentes começam já desde pequenos. O incômodo dos primeiros que nascem, o susto dos primeiros que caem. A língua confirmando a todo momento que o dente está mole. A coragem que criamos para puxá-lo. A expectativa pela fabulosa invenção da fada do dente. Os elogios pela nossa primeira porteira. A consciência criada nas últimas gerações da importância de escová-los, ao menos três vezes ao dia, de preferência depois de cada coisa que se come. Nós e nossos dentes, desde pequenos.

Venho de uma família com um número expressivo de dentistas, seis ao total. Isso por certo torna essa relação com a saúde bucal mais direta, faz o medo do dentista muito mais ameno. A primeira função, talvez menos relevante, mas socialmente mais necessária de nossa dentição seria a função estética. Sorrisos banguelas só são bonitos em bocas rosadas de bebês ou em bocas sinceras de velhos ermitões. Para nós, no dia a dia, um sorriso branquinho de dentes alinhados certamente abre muitas portas, de trabalhos a relacionamentos (além de ficar muito bem em selfies, claro).

Você cara/o leitor/a pode estar se perguntando o porquê dessa pequena crônica. Seria hoje dia do dentista? Da saúde bucal? Pois sonhei que, um a um, meus dentes ficavam frouxos e caiam, restando um solitário na boca. Um dos meus primos dentistas dizia que bastava colá-los, mas, mesmo assim, eles insistiam em cair. E esse sonho fez eu me lembrar, quando acordei, que eles estavam ali, todos. Que eu podia sim sorrir, mas, principalmente, que podia mastigar. E que podia morder. Morder e tirar o sumo de uma fruta. Morder um belo pedaço de costela. Trincar os dentes quando preciso segurar, ter força. Morder. Sei que não nos defendemos mais às mordidas - ao menos não deveríamos - mas às vezes é bom lembrar que temos essa capacidade. Usar nossos caninos para nos defender, para mostrar que se precisar estamos prontos. Que nem todo mostrar de dentes é sinal de sorriso.

Por isso essa pequena ode aos dentes. Celebração que eles existem todos aqui, lado a lado, ainda firmes e fortes.

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