De pai pra pai
Dizem que a maternidade nasce junto com o filho, que é algo natural você saber o que fazer com aquele bebê que acabou de sair de si. Mas e a paternidade, como ficaria? É fato que o vínculo do pai apresenta nove meses de distância temporal do materno. E como será que ele nasce? Seria tão "natural" como é para mãe? Porque é claro que existe algo de instinto, de fazer sobreviver a espécie, mas existe também, lado a lado, o aspecto social, as diversas bonecas que foram dadas às futuras mães, enquanto aos pais eram dados carrinhos ou elementos bélicos (daí talvez nossa ideia de que mãe cuida e pai protege).
"Espera teu pai chegar para tu vê só." "Só se teu pai deixar." "Deixa esse pedaço pro teu pai." Essas foram frases muitas vezes ouvidas por nós que temos mais de 30. Elas demonstram como a paternidade foi pensada por muito tempo. O pai representava a ordem, a disciplina, aquele que era a autoridade e a quem igualmente cabia o melhor pedaço do frango, por exemplo. Claro que isso foi na época em que ainda se pensava no pai apenas como o provedor e qualquer tipo de "ajuda" no cuidado dos filhos ou carinho demonstrado por ele eram brindes a serem comemorados.
Mas os tempos são outros. Assim como o que representa a masculinidade vem sendo revisto, o papel do pai também vem. Observo em meu convívio (mesmo sabendo que não são maioria), pais que trocam fraldas, dão banho, põe para dormir, brincam com o mesmo entusiasmo de carrinho ou de princesa. Há inclusive aquelas famílias em que a mãe trabalha fora e é o pai quem fica em casa cuidando das crianças, algo impensado há algumas décadas. E essa mudança com certeza não quer dizer que os pais de hoje amem mais seus filhos que os de outrora. Apenas significa que eles têm mais liberdade para demonstrar isso abertamente, sem julgamentos.
Claro que, ao lado desses pais super presentes, ainda há aqueles que não conseguem assumir a paternidade. No Brasil, grande parte dos lares tem apenas uma mãe como chefe de família, principalmente nas classes mais baixas. Isso ainda tem a ver com a ideia do homem reprodutor, expressa em ditados que até hoje são falados como "Prende tuas cabritas porque meu bode está solto." Neles vê-se a ideia de que o controle de natalidade sempre foi mais considerado como responsabilidade da mulher, afinal, o instinto do homem seria apenas o de reproduzir, não necessariamente o de criar sua prole depois.
Mas e como é a nossa relação de filhos? Certamente amamos nossos pais, mas também, por certo, passamos muito tempo julgando eles, pensando que gostaríamos que nossa criação tivesse sido diferente ou que parte dos nossos insucessos vêm deles. No entanto, conforme vamos amadurecendo e evoluindo compreendemos que eles fizeram o melhor que conseguiam com os recursos, não apenas financeiros mas também emocionais, que dispunham na época. E percebemos isso, por exemplo, no amor incondicional que conseguem dispor aos netos, uma vez que já não tem mais o peso da responsabilidade da criação. Afinal, seja brincando de boneca ou disciplinando, cada pai age tentando acertar a partir de como foi criado e do que ele julga como certo. E só entendemos isso de fato quando assumimos o mesmo papel, de pai para pai.
Linda Marina! Sua essência amorosa e verdadeira sendo traduzida em belas palavras.
ResponderExcluirQuerida Fortunata, diz que a gente só vê nos outros o que traz em si. Ótimo te ter como leitora.
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