Nós e a morte

Essa semana aconteceu um fato no mínimo chocante que faz a gente pensar um pouco. Em uma rede conhecida de supermercados um dos fornecedores acabou falecendo enquanto repunha mercadoria. Até aí  ok, afinal a morte foi natural e faz parte da vida. A questão é que a gerência do estabelecimento, ao invés de fechá-lo para seguir com os procedimentos necessários, "escondeu" o corpo ali, no corredor do supermercado, com caixas, guarda-sóis, e seguiu funcionando como se tudo estivesse normal. Após o acontecimento viralizar, a rede se pronunciou dizendo que mudaria seus protocolos. Será que acrescentarão "Em caso de morte no estabelecimento, fechar o local"?

 

Nem vou entrar aqui no mérito de o quanto a vida vale nesses dias, mas refletir sobre o quanto percebemos e respeitamos o outro, ou o quanto queremos nossa própria sobrevivência. Acreditar que todas as pessoas que decidiram por deixar o corpo no corredor do supermercado por três horas eram reencarnacionistas e que viam ali apenas um corpo cuja alma não existia mais é ingenuidade. Até porque, mesmo se fossem, teriam respeitado o ser que acabou de desencarnar. A questão é que provavelmente pensaram, ele já está morto mesmo, mas eu tenho que manter meu emprego, eu tenho que manter a loja funcionando, atingir a meta do mês. E a mesma "eficiência" que faz com que os colaboradores (palavra que acho super genérica) sigam a risca a cartilha da rede de supermercados, buscando um atendimento padrão em cada unidade, foi a que fez com que, na falta de um protocolo a seguir, decidissem pela ação absurda que realizaram.

 

Agora, certamente, se o fornecedor fosse amigo próximo ou familiar de algum deles, a situação teria sido diferente, porque a decisão passaria a ser pessoal. Quando um dos "nossos" morre, queremos poder velá-lo, nos despedir com calma, enterrá-lo propriamente (algo que a pandemia inclusive influenciou). Assim como outros rituais sociais, esse existe por uma razão. Claro que para quem morreu essas homenagens já pouco importam, mas para os que ficaram é que faz diferença. Quando não podemos passar por esse processo, parece que lidamos de um jeito diferente, parece que a morte não fica tão concreta e que encontraremos a pessoa na padaria da esquina tomando um café com pão na chapa, no melhor estilo Incidente em Antares.

 

Uma situação como a ocorrida nos faz pensar sobre os nossos valores. Quando achamos que é normal que pessoas façam compras enquanto há alguém morto no outro corredor, o que mais para a gente é normal? Que lei da selva é essa em que estamos vivendo que nem mais a morte, única coisa certa da vida, respeitamos? Talvez isso seja apenas um reflexo das tantas outras mortes em nosso país que também estamos ignorando para poder seguir vivendo. Há um morto no corredor 6. E daí?

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