Meus cumprimentos


Outro dia arrumando uma pasta com cartões e cartas antigas me deparei com cartões de natal. Isso mesmo, cartões impressos, daqueles que a gente comprava ou fazia e mandava pelo correio. E o que mais me impressionou nesse achado nem foi o fato deles serem algo que já não utilizamos mais hoje em dia, mas foi que alguns dos cartões que eu achei eram de colegas de aula, não grandes amigas, nem primas que moravam longe, apenas colegas mesmo, com quem eu mantinha o hábito de trocar felicitações de natal por escrito, mesmo que não fossemos amigas íntimas.

 

Isso pode parecer algo banal, mas me fez pensar em como nossos cumprimentos se modificaram nos últimos anos. Do mesmo modo que os correios tornaram-se algo apenas para entrega de encomendas ou de contas de luz e que o telefone fixo virou quase peça de museu, nossas felicitações também tornaram-se virtuais. Mandamos mensagens de whatsapp repletas de emojis, ou coraçõezinhos que saltam, enviamos directs ou mensagens em mídias sociais (as quais, por sinal, inclusive nos lembram dos aniversários). E se fazemos isso no grupo, ou de modo particular, já diz do quanto de atenção estamos dando à pessoa em questão. Imagina então se nos damos ao trabalho de fazer uma ligação? Em tempo real mesmo, como aquelas de antigamente. Isso com certeza é sinal de grande estima (ou seria já considerado inconveniente...?)

 

Mas e o que aconteceu nesse caminho entre os cartões de natal enviados pelo correio e as mensagens enviadas em grupo de whats? Será que os cartões eram apenas uma convenção social que nossas mães nos estimulavam a manter, ou eles representavam mais? Certamente, mais tempo com certeza. E mais paciência também, de quem ainda sabia esperar algo chegar pelo correio. E agora? Qual nossa paciência para ver as barrinhas azuis de uma mensagem lida e, de preferência, respondida? O quanto essas novas mídias nos aproximam ou nos mantém distantes? Não temos mais o cartão, mas temos a possibilidade de fazer uma chamada de vídeo, por exemplo, o que com certeza nos torna muito próximos daqueles com quem estamos falando. Essa moeda tem com certeza dois lados.

 

Nesse contexto, penso nas gerações que já nasceram nessas mídias, que sabem cada vez menos falar ao vivo, a não ser que seja numa call de um game online. Mas, ao trazer esse exemplo também me lembro que esse hábito dos cartões era comum entre as meninas, assim como era a troca de papéis de cartas. Nunca gosto de pensar em hábitos divididos por gênero, mas fica difícil nesse exemplo não pensar que a habilidade de conversar, de dar felicitações e mostrar afeto, sempre foi mais permitida ou estimulada às meninas (posteriormente mulheres). O que torna a questão mais complexa, porque não falamos apenas de mídias mas de comportamentos sociais. E me leva também a pensar, o quanto das nossas trocas de cartão eram mesmo genuínas, ou se eram mera convenção mesmo. Se fosse esse o caso, o emoji com coraçãozinho pode ter até mais valor.

 

No fim, acredito que essa evolução do material para o virtual não quer dizer de estarmos mais ou menos próximos, mas talvez sim de termos mais ou menos registros. Por exemplo, daqui há muitos anos, que tipo de pasta meus filhos terão para abrir e relembrar sua infância e seus colegas antigos? Eles mexeriam no drive, ou seriam lembrados pelo google fotos, por exemplo? (se é que eles ainda existirão...). Ou até talvez também esse hábito nostálgico seja algo que as novas gerações já não têm mais. Fico só imaginando a reação deles ao receberem um cartão hoje. Seria certamente interessante.




 

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