Amanhã, outra hora, mais tarde... : a arte de procrastinar
Se você é daquelas pessoas que, ao receber uma tarefa, a faz imediatamente ou no primeiro momento livre que tiver, para depois ficar disponível para fazer o que quiser com o seu tempo livre, você é uma pessoa de sorte. Me arrisco a dizer que boa parte das pessoas faz exatamente o contrário disso. Vai empurrando o afazer até o seu limite de tempo, esticando o elástico ao máximo, até que faça quando já está quase soando o gongo. Essa é a tão famosa habilidade de procrastinar.
Nesse
ano em que fomos obrigados a mudar nossos parâmetros de trabalho, em que, ao
invés de irmos até o serviço trabalhamos em nossas próprias casas, ter a
disciplina sem "bater o cartão" tornou-se para muitos algo
complicado. Como fazer aquele relatório maçante que você não quer enquanto sua
série favorita está ali, a distância de um controle remoto? Como não se
dispersar com as tarefas de casa? Com qualquer outra coisa que pareça mais
interessante do que as suas tarefas laborais? Na questão do estudo vale
exatamente a mesma coisa. Estudar em casa, com todas as suas distrações, é
muito mais difícil do que na instituição de ensino. Outro exemplo clássico de
procrastinação é o de quem está passando pelo processo de fazer uma dissertação
ou tese. Aqueles 2 ou 4 anos que você tinha, quando vê viraram poucos meses ou
semanas e seus prazos parecem estar sempre lhe perseguindo avidamente.
E
a arte de procrastinar é realmente algo engenhoso. Primeiro há a questão psicológica,
o autoconvencer-se de que dá tempo, de que é rápido para fazer, de que talvez
nem seja tão importante assim. Depois vem as tarefas que você vai fazer no
lugar da que faria de fato. Aí entram as ações mais inusitadas como arrumar
aquela gaveta que está há anos bagunçada e você nunca deu bola ou até organizar
suas prateleiras de livros em uma nova ordem. Além, claro, do ambiente ter de
estar propício para sua tarefa. Você chega a ir comprar uma caneta ou caderno
novo, porque, aí sim, vai conseguir escrever ou trabalhar.
Pensando
um pouco na sua razão de existir, acredito que a procrastinação venha um tanto
da personalidade (há pessoas que realmente tem problemas para ser organizadas),
mas também acredito que seja algo cultural. Talvez seja da nossa cultura esse
deixar para a última hora, torcendo para que estiquem o prazo, para que aceitem
que você entregue depois. No entanto, ao estarmos acostumados com isso, não
percebemos o quanto esse hábito pode nos ser nocivo. Primeiro, porque de fato
pode não dar tempo de fazermos o que precisamos e podemos, com isso, perder
oportunidades. Segundo, a frustração de ver que você não conseguiu fazer algo
que conseguiria se tivesse feito no tempo certo. Assim como, é claro, o nível
de stress que você fica ao estar "empurrando algo com a barriga",
enquanto, na verdade sabe que deveria estar fazendo. Essa ansiedade do
"ter que fazer" certamente é maior do que a estamina necessária para
fazê-lo de fato.
Só
que mudar esse hábito é algo possível, mesmo quando já somos adultos. Para isso
temos que tentar gerar novos hábitos, como o do "recebeu e fez".
Tornar essa a ação automática e não a outra. Com isso, até mais tempo livre
teremos, de forma genuína, não com o fantasma do inacabado. Eu, por exemplo,
prometo que não vou mais deixar uma crônica a espera de ser escrita por três
semanas, mesmo sabendo que em um começo de manhã posso fazê-la. Isso, no desejo de conseguir trocar a arte do
procrastinar pela arte do se adiantar.
Muito bom. Mas às vezes a procrastinação é boa: tava adiando tarefas e navegando Facebook, o que me fez parar pra eler esse texto,rsrsrs. Mas eu me identifico totalmente com essa crônica, a flexibilidade do horário junto com todas as distrações de casa tornaram trabalhar mais difícil mesmo
ResponderExcluirBoa Alice!! Procrastinar, se não for hábito, pode ser bom mesmo. : )
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