A corrida da vida

Sempre tive uma relação engraçada com o tempo. Sempre me achei em descompasso com ele. Nunca o vi como um companheiro mas sempre como um algoz. "Será que terei tempo de terminar essa tarefa?" "Vamos logo, não quero atrasar!" Ou então, a minha pior relação temporal: "será que estou atrás no tempo?" "Será que já deveria ter feito coisas que ainda não fiz?" Esse sim é um questionamento perverso. Ele dá a impressão que estamos numa corrida da vida em que temos um tempo para chegar. Mas aí eu questiono, chegar onde? Na morte?

 

Muito dessa sensação de estar "para trás" vem, de fato, da relação que estabelecemos com os outros e das nossas expectativas. Temos vários aspectos em nossas vidas e dificilmente conseguimos manter todos em equilíbrio. Muitas vezes priorizamos carreira, ou então filhos, ou vida acadêmica, por exemplo. Mas sempre que fazemos essa escolha, a fazemos em detrimento de outro aspecto. E é daí que pode vir a sensação de não alcançar os outros em alguma coisa. Por exemplo, você casou e já tem 2 filhos, mas não está conseguindo deslanchar na sua carreira. Provavelmente quando você vê amigas que estão super bem no trabalho, você deve pensar "E eu aqui, com X anos, sem ter ainda uma boa vida profissional". Só que é bem possível que a sua amiga com uma bela carreira esteja olhando para você e pensando "Nossa, e eu aqui que ainda não tenho nenhum filho...". Lembrando que a pressa social e biológica para as mulheres tornarem-se mães é uma das mais fortes e, normalmente injusta. Será que estamos preocupados com a população mundial? Ou apenas com a vida alheia?

 

Mas será que existe um vencer, um chegar em primeiro lugar? Se a gente não tivesse os outros como comparação, se não estivéssemos a todo momento observando o jardim alheio, será que teríamos essa mesma sensação de não estar de acordo com o que é esperado para nós? Porque acredito que estaríamos vivendo cada etapa da vida, como elas fossem surgindo, conforme a gente quisesse e pudesse e estaria tudo bem. Há exemplo mais bonito do que uma senhorinha de mais de 70 anos que, depois de trabalhar para ajudar a família, criar filhos e possivelmente netos, decide voltar à escola para terminar os estudos? E será que isso quer dizer que ela ficou para trás? Que ela é a tartaruga da história fazendo força para atravessar a linha de chegada?

 

Acredito que na vida temos não uma grande linha de chegada, mas pequenas travessias que vamos fazendo. E cada uma delas é uma conquista. E, por mais que sempre tenhamos sonhos e desejos, é no presente que vivemos. Poder desfrutar o que você tem, viver bem a sua fase de vida, é algo muito saudável e próximo da felicidade. Eu, por exemplo, nessa loucura de ficar planejando o futuro, e dizendo que faria 36 no fim do ano, passei a assimilar essa idade como já sendo a minha (mesmo que só faça aniversário fim do ano). Nisso me vi levando um susto essa semana, ao me dar conta - pasmem, com a ajuda de uma calculadora! - que eu ainda não tinha 36, mas 35. Ganhei um ano de vida, só nessa confusão de viver o futuro e querer prevê-lo. Para mim, só mais uma prova que o tempo é realmente algo subjetivo, e diz muito mais da nossa satisfação com a vida do que dessa corrida maluca que nos impomos. Se for para chegar em algum lugar, que seja na vida, isso sim.

 

Comentários

  1. A vida aqui e agora...ora cada um a seu tempo, cada um atravessa um portal...ou isto ou aquilo, o q vale é o se leva ou com quem se cruza? Nao se pode ter tudo. Uma vida é pouco? Lindo texto...sempre t adorei e sigo assim.

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    1. Amei o comentário. Bem isso mesmo. E o carinho é recíproco viu?

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  2. Lindo texto querida, Marina. Obrigada pela reflexão essa pressa e projeção no futuro nos afasta cada vez mais do presente. Bjo

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