Para sempre na terra do nunca
O que será que fazia o Peter Pan querer não deixar de ser criança jamais? Seria medo do mundo adulto e de suas responsabilidades? Ou seria de fato um prazer genuíno de poder aproveitar a sua infância, para sempre? Se alguém pedir para você pensar numa lembrança boa de seus primeiros anos de vida, tenho certeza de que viria mais de uma, mesmo que você também possa ter passado por alguns percalços não tão agradáveis. E que provavelmente essas memórias teriam em comum o fato delas provirem de coisas simples: um piquenique só com suco e bolacha, uma brincadeira inventada, uma boneca ou um carrinho feito por alguém. "Ah Marina, mas as crianças de hoje são diferentes. Só se divertem com videogames caros ou coisas do tipo." Será mesmo? Concordo que a própria sociedade de consumo as tenha direcionado (ou os responsáveis por essas crianças) para esse comportamento, mas também sei que, se nós as estimulamos de modo diferente, elas também vão se interessar por outros tipos de atividade.
Eu
sou uma pessoa que tive o privilégio de, antes de ser mãe, ser tia e dinda. Eu
vejo ser madrinha um pouco como ser vó: tu tem todo o carinho e cuidado com a
criança, mas a responsabilidade maior ainda é dos pais. E eu sempre aprendi
demais com esse convívio. Aprendi principalmente que o universo da criança é
muito vasto e encantador. Ao mesmo tempo em que ela ainda não consegue abstrair
um tanto de aspectos do mundo dos adultos, ela preenche essas lacunas com sua
capacidade de criar, de imaginar. Ou é exatamente o oposto. Sua inabilidade de
abstração faz com que tudo que seja dito para ela de fato seja concreto e que
ela imagine uma mesa em cima de quatro pés humanos quando alguém diz que bateu
no pé da mesa (como o Bob, no seu Fantástico Mundo).
Outra
questão que faz a infância ser única é o encantamento da descoberta. Como um/a
cientista que descobre algo que até então não se sabia, a criança está
constantemente nesse processo, pois, desde que nasce, tudo para ela, nessa
vida, é novo. É claro que eu sei que nem todas descobertas são boas, como
quando a gente descobre por exemplo que não pode confiar em qualquer pessoa (e
com o passar do tempo vai descobrindo que as pessoas de confiança são, na
verdade, minoria). Mas isso não tira o prazer de conhecer coisas novas e de ver
que cada uma delas te transforma, inclusive os aprendizados supostamente
negativos. E a gente que é adulto e que talvez nem se lembre mais como foram as
nossas descobertas, quando convive de novo com essa fase da infância, acaba
rememorando essa sensação gostosa ao vê-la acontecer nas nossas crianças.
E
é exatamente esse aspecto que eu acredito que esteja implícito na máxima que
ouvimos várias vezes de não deixar a criança que temos em nós morrer. Não é que
deixaremos de ser maduros ou que abandonaremos o que aprendemos ao longo dos
nossos anos. Mas é essa capacidade de ainda se encantar com o novo, de estar
aberto para a vida, não como se você já soubesse tudo ou pior, devesse saber tudo,
mas como alguém que ainda aprende, que ainda descobre. Ou ainda, ser alguém que
tem a capacidade de valorizar de novo o simples. Porque, para mim, é esse o
maior aprendizado que as crianças podem nos motivar: a alegria genuína. Claro
que, dependendo da fase de vida em que estamos, com todas as preocupações que
tão honrosamente nos tornam adultos, seguir esse aprendizado é extremamente
difícil. Ainda mais quando somos nós os responsáveis por auxiliar essa criança
para que ela cresça saudável física e emocionalmente até sua vida adulta. Mas
cabe a nós constantemente nos lembrarmos de que, certamente não para sempre,
mas de vez em quando, vale a pena dar um passeio pela terra do nunca.
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