Língua viva (ou Menine empoderade vota em presidenta)
Apesar de ser formada em letras não sou linguista, uma vez que não faço o estudo sistematizado da língua. Mas isso não me impede de ser uma observadora constante dela (admito que muitas vezes até de maneira involuntária). Não consigo deixar de analisar o modo como as pessoas se expressam, os novos vocábulos que surgem, principalmente aqueles que começam a ser usados ostensivamente. Dou um exemplo. Ao menos dentro da minha bolha, o adjetivo potente, e seu substantivo potência, tem sido amplamente utilizados, a ponto de me chamar a atenção. Talvez ele venha junto com a leva do empoderamento, o qual, apesar de genuinamente relevante, acabou adquirindo certo ranço por seu uso em demasia (ao menos essa impressão que sinto).
Na
verdade, o que temos que pensar é que não são esses vocábulos específicos que
nos movem, mas o que eles representam. E claro que aqui não estamos falando do
fato de ideia estar tão tristemente desprovida de seu acento
companheiro, o que por certo ainda me causa estranheza, mas de mudanças que não
foram externamente definidas e sim que germinaram dentro da língua viva. Será
que a presidenta de outrora causaria tanta aversão linguística se ela
fosse de outra corrente política? Ou seria o fato de a gente dar poder a quem
antes não tinha, vulgo empoderar, que causa tanto desconforto? Como
assim, agora todo mundo quer se sentir empoderado? Está cansando, né? A língua
é sempre fruto de uma sociedade, é seu reflexo, e é por isso mesmo que não é
ela em si que nos incomoda mas o que ela está refletindo sobre nós mesmos que a
utilizamos. Para isso basta ver que outros tipos de vocábulos que se inserem na
língua, normalmente relacionados a tecnologia e novas formas de comunicação
(como o hashtag, o dar like ou o cancelamento), são muito
menos criticados do que os que mencionei acima.
Um
exemplo bastante atual dessa controvérsia linguística é o caso do gênero
neutro. Sabemos que, diferente de línguas como o inglês, as línguas latinas
marcam o gênero em sua estrutura e, quando querem abordar os gêneros no geral,
utilizam o masculino como representante. É claro que isso há muito tempo
poderia incomodar algumas mulheres ou até mesmo aos homens mais críticos. No
entanto, muito se vem discutindo nos últimos tempos não apenas sobre igualdade
de gênero como em relação ao respeito à diversidade. E uma das soluções
daqueles que pensam essa questão foi a de considerar nem o "o" do
masculino, nem o "a" do feminino, mas o "e" de um gênero
neutro. Mas é claro que uma mudança como essa não vai ser naturalmente aceita
por todos usuários da língua. E nem faria sentido que fosse. Afinal uma
sociedade não se transforma homogeneamente da noite para o dia. Ainda mais em aspectos
que envolvem relações de poder historicamente construídas e assimiladas.
Eu
própria admito que sofro um delay de uns 5 segundos para entender
palavras escritas com o "e", mas compreendo também que isso se dá por
ser um traço linguístico ainda bastante novo. Ao mesmo tempo, o que também
percebo é que, cada vez mais, quando tenho que usar o gênero masculino para
representar a todos, isso realmente me incomoda, mesmo que seja o que a
gramática e a tradição me ditem. Ainda mais quando estou me dirigindo aos/as
meus/minhas estudantes adolescentes, pessoas que, querendo ou não, me tem como
referência linguística. Aí acabo caindo nos maçantes "e/ou" que,
apesar de não serem nada práticos em termos comunicativos, ao menos são um
indicador de representatividade (ao menos do feminino). Talvez sejam esses
meus? minhas? mes? alunes que possam vir
a utilizar o gênero neutro com naturalidade no futuro, ou que ao menos não se
importem com o fato de terem outras pessoas que o utilizem. Afinal, por mais
que nossa postura possa ser um tanto mais tradicional ou formal em relação a
língua, também cabe a nós respeitar e defender o direito daqueles que não tem
esse mesmo posicionamento linguístico.
OBS.:
Se você, como bom defensor do vernáculo, torceu o nariz já para o título da
crônica, foi descordando de cada argumento que era apresentado e chegou ao
final pensando "Essa Marina está muito equivocada! A língua pode ser viva
mas tem que ser preservada. Se não, vira uma balburdia.", eu tenho então
um pedido. Gostaria, por obséquio, que vossa mercê pegasse seu tílburi e se
dirigisse à pharmácia para comprar um remédio para cefaléia. Esses atritos
linguísticos me dão uma dor de cabeça...
Abordagem mto interessante e esclarecedora com o que vivenciamos na linguagem atualmente.
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