Quem não critica se trumbica. Será mesmo?

Fui ensinada desde criança que não sou todo mundo (naquele típico "ah, mas todo mundo tem, ou todo mundo faz") e que deveria sempre pensar por mim mesma, analisar as situações e me posicionar. É claro que isso é algo positivo, mas, que pode trazer consigo um viés talvez não interessante: a crítica excessiva. Essa semana vi numa mídia social o chá de revelação de uma amiga muito querida. Vi a alegria dos pais, dos avós, das poucas pessoas da família que estavam ali. E isso seria algo ótimo, exceto o fato de que sempre critiquei esse evento por achá-lo desnecessário, um exagero criado por famosos para gastar em mais uma festa e depois exibi-la para todos. Precisou alguém que eu admirasse fazer um para que eu parasse para pensar "olha só! Não funciona para mim, mas pode ser bacana". E esse mesmo exemplo certamente valeria para outras situações.

 

Na verdade, a crítica que fazemos tem sempre no mínimo duas facetas. Uma é a do nosso posicionamento reflexivo, da nossa postura diante do mundo, que não o recebe e aceita de qualquer forma que venha. A outra, seria a de acharmos que estamos mais certos ou que somos melhores do que aquilo que criticamos. E talvez essa segunda seja a mais difícil de admitir (nós criticamos porque é algo realmente que merece ser criticado. Será que todos, assim como eu, não percebem isso? Não sou melhor, é bom senso!). Há ainda quem diga talvez haver uma outra faceta: a do desejo. Aquela ideia de que criticamos algo que no fundo gostaríamos de ter, no típico "quem desdenha quer comprar" (se formos pensar em termos políticos, essa última é bastante difícil de se aceitar).

 

Podemos concordar ou não com essas facetas, no entanto, é mais difícil questionar o fato de que nossa crítica agora não precisa ser apenas para a gente mesmo mas se torna cada vez mais pública. Afinal, nada melhor do que uma bela rede social para a gente pôr a boca no trombone. Se estamos fazendo isso para criticar uma rua que segue esburacada por meses, ou situações de intolerância ou preconceito de qualquer tipo, por exemplo, é um caso. Mas e se for para julgar um participante de reality show ou qualquer outra pessoa que esteja na mídia? Estamos sim na cultura do cancelamento, então nada mais fácil do que nos deixarmos levar pelo fluxo do julgamento virtual. E talvez seja essa a questão. Crítica e julgamento seriam a mesma coisa? Qual estaria mais imbuído de juízo de valor?

 

Quando ainda estamos na esfera do público, de criticar um governo ou uma celebridade, é ainda diferente de quando trazemos essas críticas para nosso mundo privado. Criticamos colegas de trabalho ou chefe, criticamos pai, mãe, irmãos, cunhados, marido, esposa, filhos... E, finalmente, muitas vezes criticamos nós mesmos. Certamente fazemos isso porque queremos o melhor para todos, o nosso melhor. Mas, o que muitas vezes não percebemos é que, junto com a crítica há um sentimento de inadequação que geramos. Às vezes, como no caso do chá da minha amiga, ao invés de pensarmos que a gente faria diferente ou que isso é algo sem sentido, a gente poderia pensar apenas "e daí?": "as coisas são diferentes de como eu pensava mas, e daí?". É continuar reflexiva/o mas tentar perceber a linha tênue entre reflexão e julgamento. Pois se o mundo já está tão difícil como está, a gente pode deixar para os outros que atirem a primeira pedra.

 

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