Rogai por nós
Existe um certo consenso de que religião, política e futebol não se discute. E por que seria isso? Simplesmente porque esses temas tendem a ser mais emocionais do que racionais. Você não escolhe torcer para o time que torce porque fez uma tabela com os quinze últimos campeonatos, analisou o nível de aproveitamento dos jogos e estabeleceu previsões futuras. Da mesma forma, a religião normalmente é algo herdado, algo que aprendemos com nossa influência familiar. No caso dela ter sido uma escolha própria, possivelmente baseada em reflexão e estudo sobre aquela religião que mais se adapta a quem você é, isso não o/a torna capaz de "defendê-la" racionalmente para os outros: ela combina com as suas crenças e valores e os argumentos que lhe convencem por certo não são universais.
Se,
assim como eu, você convive no meio acadêmico, principalmente com professores
de história, sociologia ou filosofia, também das áreas de exatas e informática,
achará mais difícil encontrar um praticante de qualquer religião. No caso do
primeiro grupo, a consciência do que as religiões fizeram (e ainda fazem) ao
longo do tempo, ou melhor, do que os homens fazem em nome da religião, torna
difícil conseguir corroborar com alguma delas. Já o segundo grupo estuda a
matemática, ciência que tenta descrever nosso universo através de leis que
podem ser absolutamente verdadeiras ou falsas: se uma lei foi provada
matematicamente, ninguém pode duvidar dela (a não ser que seja por novo cálculo
matemático). O mesmo se aplicaria para o comportamento de máquinas e
computadores, os quais seguem um padrão, uma programação específica, que não
deixa espaço para o aleatório ou para a interpretação. Então como, nesse
contexto, crer em um ser do qual nada se prova efetivamente e ainda seguir uma
doutrina que, teoricamente, seria inspirada na sua existência?
É claro que
aqui estou levantando não um fato mas uma tendência baseada puramente em minha
observação. Por certo esse comportamento não é regra. Na própria história
tivemos cientistas e pensadores que acreditaram em um ser criador para além da
condição humana. Os deístas foram um grande exemplo disso. Homens como Voltaire
e Rousseau, ou Galileu e Newton, defenderam a existência de um princípio
criador (no caso, Deus), o qual, no entanto não estaria atrelado a nenhuma
religião. Em outras palavras, o deísmo seria uma espécie de religião natural ou
racional, que diria respeito à natureza humana e não combinaria com dogmas,
sacerdócios ou a ideia de pecado e punição “divina”.
E esse
princípio é até bastante coerente. Sabemos que, mesmo acreditando na existência
de um Deus (seja o nome que dermos a ele), as religiões existem mesmo é pelos
homens e para os homens. São elas que
nos dão um guia de comportamento (alguns mais rígidos que outros, certamente),
são elas também que nos dão respostas (mesmo que sejam individuais e não
comprovadas). Mas principalmente são elas que nos dão conforto. A fé, o
conseguir acreditar que algo vai dar certo, mesmo que não tenhamos como
calcular ou prever isso com precisão, é muito confortante. Talvez seja por isso
mesmo que, no Brasil, seja tão comum se ir numa procissão de um santo católico,
ao mesmo tempo em que se oferta flores a um orixá da Umbanda, ou se toma passe
em uma casa espírita quando se está “carregado”. É o típico acender uma vela a
cada santo para ver qual lhe atende primeiro. Ou, como diz o protagonista de
“Grande Sertão: Veredas”, Reza é que salva da loucura. No geral, isso é que é salvação
da alma… Muita religião seu moço. Eu cá, não perco ocasião de religião.
Aproveito todas. Bebo água de todo rio… Uma só para mim é pouca, talvez não me
chegue.
Ah sim. E claro que, havendo os que acreditem em tudo, há os
que também não acreditam em nada. A não ser quando conseguem uma vaga de
emprego, ou recebem um diagnóstico negativo de alguma doença e deixam escapar
um "Graças a Deus". Ato falho perdoado, afinal, um deslize mais
linguístico do que de crença.
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