Eu te ouço e tu me ouves

Já faz certo tempo que percebo uma necessidade crescente das pessoas em serem ouvidas. Talvez seja porque tem-se cada vez mais caixas para digitarmos caracteres, mas igualmente menos rostos que não estejam alheios ao seu redor, absorvidos por uma tela de celular. No entanto, há alguns casos específicos em que esse ato de ser ouvido e também ouvir torna-se não apenas necessário mas quase uma questão de sobrevivência: quando estamos em uma situação extrema e encontramos alguém que compartilha dessa mesma situação.

Há um mês passei pela experiência de ser uma mãe de UTI neonatal. Ao invés do tão planejado pele a pele com meu bebê, ganhei uma incubadora, luvas e avental para poder tocar no meu filho. E nos diversos momentos em que eu estava na entrada da UTI esperando que as coisas lá dentro estivessem calmas para poder entrar (como se pode imaginar, "calmaria" não combina exatamente com Tratamento Intensivo), e, enquanto minha cabeça insistia em não relaxar, encontrei nos pais na mesma situação um oásis em que finalmente consegui hidratar a minha confiança. Compartilhávamos as condições de nossos filhos, seus avanços e retrocessos, a melhor maneira de extrair leite, as nossas frustrações por estarmos ali, igualmente as nossas esperanças. E isso dava a uma situação tão extrema como aquela um certo ar de normalidade, ao se saber que sim, estava ruim, mas ao menos não se estava sozinho. A ligação daquela pequena comunidade temporária era tão forte que a cada bebê que ganhava alta, era como se víssemos o nosso próprio filho saindo daquela unidade.

 

Essa situação me trouxe algumas reflexões. Uma, é a ideia de pertencimento, de compartilhar algo com alguém. O que faz com que uma festa a fantasia seja uma festa a fantasia é que existe um grupo mínimo de pessoas caracterizado de modo específico. Mas se só você está fantasiado enquanto todos estão com roupas normais, você passa a ser apenas um excêntrico ou alguém que errou o dia da festa. A segunda situação é a de que aprendemos muito com a experiência alheia. Eu não preciso necessariamente vivenciar algo para aprendê-lo. Eu posso contar muito com o que outras pessoas já viveram para tomar como base. E isso para a nossa vida faz toda a diferença. Há inclusive algumas teorias da aprendizagem, como a defendida por Vygotsky, que se baseiam na premissa de que apenas aprendemos e nos desenvolvemos em interação social e mediados pela linguagem.

 

Essa questão da interação social linguisticamente mediada, me remete, na verdade, para a própria importância da expressão verbal. No caso dos grupos de apoio, sejam espontâneos como esse da UTI ou planejados como uma reunião de AA, essa interação ocorre através da conversa oral. Mas há também a possibilidade de fazer o mesmo de modo escrito. Como alguém que se identifica muito com o ato da escrita, eu não consigo conceber melhor forma de lidar com minhas peculiaridades de vida. E se o ato de escrever catarticamente, como em diários, por exemplo, já é bastante eficaz, a escrita compartilhada pode ser ainda mais efetiva. Esse ano li um romance que de certo modo abordava esse tema: "Escola de contos eróticos para viúvas" da autora Balli Kaur Jaswal. Na história, uma jovem filha de imigrantes indianos começa a dar aula para viúvas em um centro comunitário punjabi em Londres. Ela imaginava que ensinaria escrita criativa, mas não contava com o fato de quase todas mulheres não saberem nem ler nem escrever. O destino das aulas acaba se transformando quando elas se deparam com um livro de contos eróticos e, a partir dele, começam a narrar suas próprias histórias para que uma delas escreva, se permitindo expressar confidências e desejos que não eram bem vistos para mulheres na cultura em que viviam. Esse ato mostrou-se não apenas como um reflexo da sororidade que as unia mas também como um tipo de transgressão, o qual acabou gerando algumas mudanças na comunidade delas. É um ótimo exemplo da escrita como uma forma de poder ou ao menos de fazer-se ser visto.

 

É interessante como essa materialização das nossas narrativas no papel parece atribuir a elas mais concretude, principalmente porque outras pessoas podem lê-las e com elas dialogar. Da mesma forma o faz um ouvido, de fato atento, com o que lhe contamos. Porque, por mais que se saiba que viemos para e voltamos desse mundo sozinhos e que cada um caminha com suas próprias pernas, é muito reconfortante olhar para o lado e ver que há outras pessoas, talvez não no mesmo caminho, mas em caminhos semelhantes, os quais conseguimos ver que chegam em algum lugar. Ou então, mesmo que a gente não viva para mostrar aos outros (o Instagram que me desculpe), é bacana reconhecer que tem alguém que se importa em saber da gente, do nosso caminho, nossos desvios, das paisagens que vimos ao andar ou dos buracos que enfrentamos. Caso contrário, temos a impressão de sermos aquela árvore filosófica que cai na floresta sem testemunhas e que não temos certeza que de fato caiu. Desejamos que nossos estrondos ecoem em ao menos um par de ouvidos. 

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