Dia de vento, dia de mortos

     Essa frase que conheci pela personagem Ana Terra, em "O tempo e o vento", de Érico Veríssimo, não é exatamente sua, mas de pessoas de uma época e de uma região. Me lembrei dela porque estamos a alguns dias da celebração de finados e, ao menos onde estou, o vento já teve início. Como poderiam nossos mortos se comunicar conosco de onde estiverem? O ar, para quem não tem mais um corpo físico, parece mesmo um bom meio. Não só a imaterialidade do vento possibilitaria isso, como sua própria sonoridade, que não nos permite esquecer dele, o vento e também os mortos, mesmo quando estamos abrigados.

 

    Mas um dia como o de finados, certamente adquire conotação diferente para cada pessoa. Mais para a campanha, como dizemos aqui, esse dia e o dia de natal são os únicos em que os trabalhadores, por respeito, não vão para a lida do campo. Para muitos, no entanto, ele não passa de mais um feriado, que, se dermos sorte, pode ser um feriadão. Para mim, especificamente, comecei a prestar atenção para a data nos últimos anos, conforme fui ficando mais adulta. Quando se é jovem a ideia da morte é algo tão distante, que, ter um dia para celebrar os que se foram, não parece combinar com nossos horizontes. 

 

    Algumas culturas acabaram me influenciando nessa mudança, por vezes através de obras de ficção (não vou entrar no mérito de novas tendências como a constelação familiar ou o hoponopono, mas elas também se baseiam na ideia de que você só é o que é porque houve quem o precedesse, então é melhor que você fique em paz com essa ancestralidade). Acredito que a primeira tenha sido a cultura mexicana, com seu dia de los muertos, que foi tão bem representada na animação "Viva - a vida é uma festa", de 2017. Depois, a cultura budista, com a qual tenho tido mais contato através de alguns seriados coreanos. Em ambas os mortos são de fato celebrados, honrando-os através não apenas de flores e orações, mas também de pratos de comida, música, incenso ou meditação. Esses hábitos refletem uma concepção de morte que não foca na tristeza da perda, mas sim na alegria da vida vivida e que, construída em cima de erros e acertos, nos trouxe onde estamos. 

 

    Tradições como essas, principalmente se repassadas para as gerações que estão vindo, fazem com que se tenha um senso de pertencimento e de gratidão inclusive (que só faz sentido se for estendido aos mais velhos vivos, claro). Não apenas para as crianças, mas para nós, "jovens" de trinta e tantos anos, é interessante buscar saber um pouco mais de nossos avós, bisavós, tios, amigos mais próximos da família. O que faziam? Do que gostavam? Havia alguma marca registrada pela qual eram conhecidos? Esse tipo de informação não nos aproxima apenas deles, mas, muitas vezes de nós mesmos, ao percebermos haver características semelhantes, ou o contrário, que evitamos. Ditados como "quem guarda o que não presta tem sempre o que precisa", que ouvi por vezes dito na casa dos meus pais, só faz sentido se reconhecermos como era uma realidade de escassez (afinal somos da geração nescau com torrada vendo TV Colosso de manhã e que, quando virou adulta, entrou na vibe das boas energias do desapego, de coisas clean e minimalistas ou dos princípios de organização de Marie Kondo).

 

    Sei que aqui por casa, aproveitando que estou com meus pais, haverá uma pequena celebração aos mortos, feita à nossa moda. Uma mistura de influências espíritas-mexicanas-budistas abrasileiradas. Imagino que fará bem. Para os de lá e os de cá também. 


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