Isso aí! Muito bem!

Querendo ou não, lá se foram uns belos 15 anos desde que comecei a lecionar. Certamente desde então muito da minha prática pedagógica foi se alterando, não só a partir das mudanças de grupos e disciplinas ministradas, como da própria prática em si. Mas há uma grande força motriz na minha concepção pedagógica a qual se mantém intacta e que eu acredito seja inerente a minha personalidade e não necessariamente fruto dos meus aprendizados. Eu de fato acredito que todos podem aprender, desde que queiram minimamente e façam um certo esforço, claro. E é dessa premissa que vem a minha abordagem baseada no reforço positivo. Desde as primeiras aulas de inglês que dei lá no começo da minha carreira, eu venho notando e confirmando que um aluno que se sente confiante, consegue produzir muito mais do que um aluno que não se sente da mesma forma (ao menos isso é verdade para línguas). E muitas vezes essa confiança vem do docente e não de quem aprende, de um esforço para entender uma pronúncia mais peculiar, para buscar algo positivo em um texto antes de fazer diversas correções necessárias, enfim, de abordar o erro como parte natural do processo (ênfase aqui) de aprendizagem e não como algo que deve ser punido ou do qual se envergonhar. E nesse agir é claro que eu sei que, muitas vezes, não sou de todo verdadeira. A não ser que se entenda que o "muito bem" quer dizer "eu reconheço a sua tentativa e esforço" e não "a sua resposta está ótima. Exatamente como o esperado."

 

E não que por essas semanas me vi do outro lado e, para minha satisfação, pude perceber que há certa efetividade na minha abordagem. Sou mãe de primeira viagem e, digamos que, muito mais próxima dos 40 que dos 20. É claro que ainda sou insegura, como com tudo que fazemos pela primeira vez. As coisas pequenas o cotidiano até vai normalizando, mas coisas maiores, como questões de saúde, muitas vezes ainda são uma incógnita (junte-se a isso a bela quantidade de conselhos que pais recebem, os quais, mesmo bem intencionados, acabam aumentando ainda mais a dúvida já existente). Pois fomos, filho e eu, consultar pela primeira vez com um pediatra, senhor muito experiente e atualizado, com recomendação de ser extremamente competente. Primeira atitude, me ouviu com calma e atenção. Me deu explicações clinicamente precisas mas também didáticas. Me passou instruções. Examinou o bebê e, escreveu todas as instruções que tinha me passado, por fim, repassando-as comigo (buenas, nem preciso mencionar que, além de clinicar, ele também é um colega de sala de aula). Mas, a cereja mesmo do bolo foi o que ele escreveu no fim das instruções. Depois de várias recomendações que, freudianamente, poderiam ser interpretadas como "você não estava cuidando suficientemente bem do seu filho", ele fechou com um "parabéns". E foi com essa impressão que fui para casa: com o alívio de saber que sua saúde estava sendo muito bem cuidada e que, sim, eu estava fazendo um bom trabalho.

 

É claro que a gente não cria filhos para receber elogios. Para que ergam estátuas em nosso nome, em reconhecimento às noites mal dormidas, ao happy hour adiado para quando tiverem 21 anos, ao esforço para educarmos da melhor forma que conseguimos. Mas ter alguém assim tão experiente no trato com bebês lhe dando os parabéns, mesmo que não passe de um "eu sei que está fazendo o seu melhor", certamente conforta. Porque, salvo alguns casos de negligência, nenhuma mãe ou pai faz conscientemente quer fazer mal ao seu filho. O que fazemos, fazemos buscando acertar. E é isso que esse elogio final representa, uma motivação para você seguir adiante.

 

No entanto, por mais que bastante efetiva, nem tudo nessa abordagem são flores. Há sim um risco, que você talvez já tenha percebido. Na mesma semana do médico, eu vi uma sketch de humor muito bem bolada em que o ator tentava resolver um cubo mágico com todos os lados da mesma cor: era o cubo da geração de hoje, o qual todos conseguem resolver e ninguém é excluído. Esse certamente é o lado extremo da positividade, quando, na tentativa de acolher qualquer tipo de esforço, acabamos tirando todo o desafio das tarefas. E, nesse caso, nem prazer há em acertar, porque não há de fato desafio. É o mesmo que ocorre quando dizemos apenas elogios, sem nenhum tipo de crítica ou ressalva. Afinal, quando tudo é elogiado, nada é também elogiado. 

 

OBS: para você que acompanha meu blog no seu curto tempo de vida, não se preocupe que ele não virou um blog de maternidade. É apenas que crônicas dizem respeito ao cotidiano e, nos últimos dois meses, esse tornou-se o meu. Alerta de spoiler: talvez ainda demore alguns textos para esse tema passar. 


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