E o Freud hein?
Não é necessário que você entenda de psicanálise para usar a frase "Freud explica", normalmente relacionada a comportamentos realizados de modo automático e refletindo algo mal resolvido com sua família mais próxima. Na verdade, a própria frase "assunto mal resolvido em família" parece algo meio óbvio, porque, haveria famílias em que há apenas assuntos bem resolvidos? É ponto para reflexão pensarmos o porquê algumas questões são tão espinhosas dentro de casa e, a mesma situação, quando tratada com amigos ou até estranhos perde força ou importância. Certamente não sou expert nessas questões, mas, como alguém que faz terapia a um bom par de anos, posso falar de carteirinha, ou de poltrona de análise, no caso, que, vira e mexe, tudo realmente volta para o seio familiar, para nossas relações mais próximas com pais, irmãos, cônjuge e filhos. E isso faz sentido, uma vez que eles são parte fundamental de nós mesmos e muito da nossa própria identidade se constrói em função dessas relações.
Agora, a questão é, o quanto saber disso também não é usado por nós como muleta emocional? Por vezes, ao invés de buscarmos o autoconhecimento e o nosso consequente aprimoramento, preferimos focar no que os outros fazem ou deixam de fazer para ou contra nós e nos colocamos no papel de vítima de situações nas quais acabamos acomodados. Uma vez ouvi de uma terapeuta "vamos liberar tal familiar? Ele/ela fez o melhor que pôde." E essa fala foi mesmo libertadora, porque, a partir daquele momento, eu tive plena consciência de que o papel de lidar com aquela situação era meu e apenas meu. Nós nunca temos responsabilidade pelo que as pessoas fazem conosco, mas apenas temos pela nossa reação a isso.
Outra
alternativa interessante é mudarmos as metáforas pelas quais concebemos essas
mesmas relações familiares. Normalmente as pensamos como um embate, espécie de
batalha mesmo (no caso de duas pessoas, um duelo). E, nessas situações, sempre
há um lado perdedor e um ganhador e a ideia de medir forças. Agora, se
modificarmos essa concepção para uma de cooperação, que a relação familiar
seria, por exemplo, como uma campanha de RPG em que se trabalha juntos para
atingir um objetivo, a situação toda muda de figura. Além de olharmos com olhos
mais empáticos para o outro e suas demandas, também não nos achamos mais
vítimas de nenhuma situação. Compreendemos que são apenas pessoas agindo de
acordo com as ferramentas emocionais que tem disponíveis e que, por mais que
pareça pessoal, não é. Na verdade, até é, mas pessoal para a própria pessoa e não
para os outros.
Ano
que vem, mais uma vez, teremos um ano eleitoral em que muitas relações
familiares serão colocadas a prova. No caso da própria pandemia e como cada um
lidou com ela, isso já acabou acontecendo. Se você é do time que aglomera ou não,
do time da vacina, do distanciamento social, do que culpa o governo ou do que
acha que o governo está fazendo o melhor diante da situação. E em questões como
essa em que temos que nos posicionar, muitas vezes toleramos um amigo ou
conhecido que pense diferente de nós, mas dificilmente o fazemos com um membro
da família. Isso porque nossas expectativas com esse familiar são normalmente
maiores do que com os outros. E digo mais. Porque, sendo da nossa própria
família, a postura dessa pessoa acaba, de certo modo, dizendo também de nós
mesmo e da nossa criação. E aqui sim se faz necessária uma boa dose de
tolerância para evitar o enfrentamento e fazer da mesa de domingo um passeio no
parque e não um campo de batalha. Mesmo que para isso não se fale nada mais do
que amenidades sobre o tempo, torcendo para que não haja tempestade.
Boa reflexão. \*/
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