Você já usou Libras hoje?
Quando pensamos que língua queremos aprender, provavelmente escolhemos alguma língua estrangeira. Mas você sabia que Libras é, possivelmente, a segunda língua mais falada no Brasil? Que sem ela você deixa de se comunicar com toda uma comunidade surda no país? Além disso, fico imaginando o exercício que uma língua gestual não faz para o seu cérebro por usar outra forma de expressão que não a oral/auditiva. Seria como descobrir aquele músculo na ginástica que você nem sabia q existia em seu corpo. Tipo o crossfit das línguas. E claro, tem sempre a inclusão. Mas esse não é pra ser um texto de ideologias.
Se você mora no Brasil é bem provável que sua
língua materna seja o português. Certo? Sim, se você for ouvinte. Mas, caso
você seja surdo, é bem possível que sua língua seja Libras e que você saiba
português como uma segunda língua, assim como nós sabemos o inglês ou o
espanhol. Mas e Libras é uma língua? Certamente que sim. Uma língua
gestual-visual, com gramática própria, que utiliza gestos e expressões faciais
e corporais para comunicar. Por mais que possa parecer a um leigo que ela não
passe de mímica, ou que é uma língua mais simples, ela é um sistema tão
complexo quanto qualquer outro linguístico. E não, assim como as demais
línguas, ela não pode ser universal, já que diz respeito a uma determinada
cultura de um local específico.
Meu primeiro contato com Libras foi na
faculdade. Durante alguns semestres eu fiz parte de um projeto em que
preparávamos material didático em língua portuguesa para surdos e, foi nessa
época, em que tive a oportunidade de ter uma professora de Libras surda.
Depois, no mestrado na UFSC, meu contato era apenas como observadora, em que eu
aproveitava que a universidade tem uma graduação em Libras pra ficar, de modo
muito pouco elegante, olhando enquanto os alunos conversavam pra ver se eu
entendia algo - afinal, uma língua só se mantém viva se estivermos em contato
com ela. Finalmente, quando eu já era professora do IF, tive novamente a
possibilidade de voltar a estudar com a professora de Libras do meu campus. É
claro que, nessa época a língua estava bastante adormecida, mas foi muito
satisfatório conseguir reavivá-la.
Você pode ter pensado, por acaso é dia do
surdo ou algo parecido para Marina estar falando disso agora? É que outro dia
vi uma postagem que dizia que Libras era a segunda língua mais falada no Brasil
(fui atrás do dado, mas admito que não encontrei em nenhuma fonte tipo IBGE),
mas, para mim, faz sentido que seja. E aí me vi pensando que, mesmo com tantos
surdos, a maioria da população não sabe nenhum sinal. Ou, se tem 30 e poucos
anos, sabe no máximo a abecedário da Xuxa em datilologia. E, com isso, os
surdos se veem obrigados a escrever o que querem comunicar, algo que deixa a
comunicação certamente mais truncada e lenta. Me lembro quando a minha
professora de Libras me pediu uma vez para ir ao banco com ela, para traduzir e
eu ainda sabia muito poucos sinais. Fiquei super nervosa porque questões
bancárias são sérias e tinha medo de traduzir algo errado. E ela, por certo,
pediu minha ajuda por não haver outro ouvinte para pedir.
Mas, quando pesamos se vale a pena ou não
aprender Libras, supomos que, se as necessidades da comunidade surda não me
comovam, eu sempre posso pensar no meu ganho cognitivo não apenas de aprender
outra língua, mas uma língua que usa outra modalidade que não a oral para
comunicar. Além, claro, da questão expressiva que com certeza também melhora.
Se tudo isso não bastar, há ainda um argumento que uma vez me foi dito e que
calou fundo por ser muito verdadeiro. Todos nós somos deficientes em potencial.
Nesse caso, todos somos surdos em potencial. Sim, porque nada diz que não
poderá acontecer algo conosco que nos torne surdos, seja apenas por velhice e
uma possível perda auditiva ou por doença ou acidente. E aí seremos obrigados a
usar libras e gostaremos que outras pessoas usem também conosco. E, nessa
situação, certamente vamos querer muito mais que o abecedário da Xuxa para nos
ajudar.
Em tempo: você já pensou como foi para os
surdos que fazem leitura labial, conseguir se comunicar durante a pandemia? Se
até para nós já era difícil entender alguém de máscara, mesmo ouvindo, imagina
se não?
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