Olhos de quem vê
Você provavelmente já leu em algum lugar sobre a metáfora de trocar os óculos para ver a vida com outros olhos. Pois outro dia me peguei pensando nela. Isso porque, enquanto eu passeava por um lugar onde passo sempre no meu dia a dia, me vi prestando atenção em duas árvores que estão ao lado uma da outra e que neste momento estão floridas. Uma com viçosas flores vermelhas de cinco pétalas e a outra com flores também grandes e cor de rosa. Uma mais alta, a outra mais copada. E eu me vi pensando que elas faziam uma bela dupla, que combinavam assim, lado a lado, que constituíam realmente um rico par. E não pude deixar de sorrir com essa minha observação e de pensar que é disso que é feita a literatura: um olhar de quem procura ver além do banal, de quem observa e, principalmente, de quem imagina.
Eu não cheguei a ir adiante com o pensamento,
mas é bem possível que se o fizesse imaginaria um par de dançarinas talvez, com
suas saias floridas dançando carimbó em Santarém, no Pará. Ou duas jovens
senhorinhas envolvidas num xale vistoso enquanto seguem pela rua para irem
tomar chá. E daí poderia imaginar uma história porque afinal personagem pede
enredo. E é essa a verdadeira mágica da literatura. Ela nos tira do nosso dia a
dia de trabalho, afazeres, perfis em redes sociais e nos transporta para esse
outro lugar, um lugar imaterial mas muitíssimo real, onde, se quisermos,
podemos nos perder por horas. Um lugar de imaginação mas baseado no que existe,
que tanto nos permite abstrair do mundo como também nos faz mergulhar mais
fundo nesse mesmo mundo. Da mesma forma, viver por algumas páginas mundos que não são meus.
Agora paro para pensar e percebo que talvez
essa minha paixão pela literatura tenha me sido herdada juntamente com a minha
miopia. Sim, você não leu errado. Miopia mesmo. Porque comecei a usar óculos
com três anos de idade e de fato o mundo não passa de um borrão quando estou
sem eles. Então, já que eu não conseguia ver, eu precisava imaginar. Imaginar
as pessoas que eu via tentando deduzir quem eram, imaginar as coisas na minha
frente que eu buscava decifrar. É como aquela cena do filme Patch Adams em que
um senhor que é um gênio incompreendido segura 4 dedos levantados da mão e
pergunta insistentemente quantos dedos as pessoas veem. A resposta é oito e
para isso é preciso ver além da mão e desfocar a visão. Exemplo perfeito para
esse olhar enviesado que acaba tornando-se preciso.
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