Um caderno e uma faca
Essa semana foi pauta em um dos almoços aqui de casa a dona Onorina. Dona Onorina era uma professora que, nos idos de 1964, utilizava em sua abordagem pedagógica bater com uma régua de madeira nos dedos dos alunos de 9 anos para que se aplicassem nos estudos e se comportassem. Na mesa as opiniões se dividiram. A turma da dona Onorina era a dos melhores alunos, portanto, alguns defenderam que sua metodologia funcionava. Além disso, quem passou por isso está aí, adulto feito e de bons princípios. Enquanto outra porção da mesa, defendia que não é preciso uma professora bater em seus alunos para que eles sejam bons, eles também podem ser motivados por outras formas menos violentas de estímulo. O que todos concordavam era que não era mais possível que uma professora nos tempos atuais mantivesse a mesma postura.
Hoje me deparo com a notícia de que um aluno em São Paulo esfaqueou quatro professores e alguns colegas. O aluno tem 13 anos. A professora Elisabete Tenreiro de 71 anos faleceu. Aparentemente o motivo dos ataques foi uma discussão sobre racismo. Ele não era o agredido, mas o que xingou o colega de "macaco". O pior de tudo é que um caso assim não chega a nos surpreender. Ele entristece, gera um pouco de revolta, mas não surpresa. Da sala de aula da dona Onorina para a da professora Elisabete muita coisa mudou. O respeito à infância e à adolescência felizmente foi conquistado. Mas isso não quer dizer que a sala de aula tornou-se um ambiente pacífico. Pelo contrário. Muitas vezes ela é um ambiente de muita tensão, reflexo da comunidade no seu entorno e das famílias que fazem parte dela. Os filhos desse contexto levam pro ambiente escolar toda a violência que vivenciam e, com isso, quem passa a temer são os professores e os próprios colegas.
Eu fico imaginando como vai ser para a comunidade escolar retornar para a escola Thomazia Montoro depois que passarem os dias de luto. Fico pensando os professores preparando suas aulas, chegando na frente das suas turmas. Fico imaginando os adolescentes, as crianças, vestindo o uniforme, passando pelo portão da escola. Um acontecimento como este com certeza fica marcado em todos. Deixa um registro que gera gatilhos. O ideal seria que ele alavancasse um movimento antiviolência. Que ele movimentasse as pessoas envolvidas para que elas reagissem no sentido de dar um basta a situações como essa. Que elas nutrissem entre seus jovens o sentimento de amor à vida, de autocuidado e de horizontes amplos para seu futuro. Mas é bem provável que nada disso aconteça. Que as pessoas que sofreram esse atentado fiquem anestesiadas. Que voltem para a escola apenas porque precisam, porque não há nada mais a fazer. E que o ciclo de violência se perpetue, cada um se defendendo do jeito que dá.
Eu fico pensando quanto ódio havia nesse menino de 13 anos. Ódio que acha normal xingar um colega negro de macaco. Ódio que faz com que, além disso, ele pegue uma faca na cozinha de sua casa e uma máscara e se dirija até a escola para atacar (será que sua intenção era matar? Ou apenas ferir e assustar?). Quanta violência e abuso ele próprio não sofreu ou então testemunhou para achar uma atitude assim normal. Eu sou professora e sempre gostei de pensar que, de uma forma ou de outra faço a diferença. Se não consigo motivar ou ensinar para todos os alunos, ao menos uma porção eu sei que toco. Mas muitas vezes há situações de vida tão mais complexas, que a escola não consegue exercer nenhum tipo de influência. Pelo contrário. Ela acaba gerando nas crianças ou adolescentes revolta por terem de estar ali e se submeterem a um tipo esperado de comportamento. O caso de hoje é um espelho de uma sociedade doente que, ao invés de gerar jovens saudáveis e que respeitem o outro, os adultiza ao lhes apresentar desde muito cedo uma violência naturalizada.
É bem possível que a professora Elisabete, aos 71 anos, ainda estivesse lecionando por motivos financeiros. Mas, certamente ela tentou conter o jovem agressor por vocação. O instinto de proteger os outros alunos, a sua escola. E é ela que deve receber destaque hoje, ela e sua trajetória na educação. Porque se uma faca e uma máscara podem fazer tanto estrago, prefiro acreditar que um caderno e uma caneta podem fazer ainda mais.
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