Oi xará, como você está?
Sei que faz tempo que não nos falamos. Sei que as pessoas hoje nem escrevem mais cartas. Mas acho que ainda é um pouco romântico. E, além do que, não me dou bem com computadores. Teu pai até tem um, que usa pros arquivos do supermercado, mas eu não me arrisco a tentar entender essa máquina. Você deve ter um, claro, agora que escreve. Na verdade, foi isso que me fez escrever para você. Li um livro seu. Não é seu nome que está na capa, mas sei que é você. Você e eu, sob seu olhar de criança. Ler esse livro foi duro para mim. Foi olhar-me num espelho embaçado, de verdades que nunca quis enfrentar. Como nunca consegui estar presente para você. Como nunca consegui estar presente nem para mim mesma. Certamente foi por isso que você foi embora na primeira oportunidade que teve. Aquela bolsa para a Espanha era tudo que você estava esperando. E posso ver que ela de fato deu a virada que você esperava para a sua vida. Agora você parece feliz. Tem sua carreira, acho que está morando com alguém (não lembro bem se é um rapaz ou uma moça, suas ligações são sempre bastante reticentes. Acho que você liga apenas porque se sente no dever, mas não de fato porque queira falar conosco). Eu também não lhe julgo. Nunca demos muita bola para a sua vida enquanto esteve aqui. Mas posso lhe contar? Acredita que logo que foi embora o apartamento ficou bem mais vazio? Não tinha mais alguém nos pés da minha cama fazendo perguntas. Não tinha mais para quem contar as fofocas de minhas revistas favoritas. Se bem que, nos últimos tempos, fazíamos isso bem pouco. Ah é, a foto da orelha do livro era sua. Puxa, preciso dizer porque na verdade você sempre soube: essa foi a primeira vez em que lhe achei bonita. Como o cabelo curto lhe caiu bem. Agora você tem cara de quem encontrou seu estilo. Tão diferente de mim. E, sabe, fico feliz que seja assim. Acho que nem eu mesma ia querer parecer comigo. De que adianta ser bela? O que isso me trouxe, de verdade, na vida? Preferia muito mais ser inteligente como você. Engraçado isso, não? Eu que passei sua infância enfatizando que nós éramos muito diferentes. Como isso lhe fazia mal. E eu acho que no fundo eu sabia. Mas também eu ignorava uma maneira de lhe fazer elogios. Seu quadro ainda está na parede do escritório. O quadro que você fez de mim. Sei que você deve pensar que está lá porque é uma imagem minha, mas não. É uma mistura de admiração por você ter feito algo assim tão bem feito tão jovem e de egocentrismo meu por ver como você me admirava. Que saudade da época em que você ainda via em sua mãe alguém para ser pintada cuidadosamente e emoldurada em uma parede.
Mudando de assunto, sua tia adotou uma
menina. É, não foi bem adotou. Ela era filha de uma funcionária do supermercado
que era de Bogotá e acabou morrendo atropelada. Uma tragédia. Diz que a menina
viu tudo. E só moravam as duas aqui na cidade, não se sabia de parentes vivos.
Sua tia já gostava muito dela. Sempre que podia a levava para passear ou
ajudava com as tarefas. Acabou sendo natural que ficasse com ela. Da minha
parte, eu acho estranho, ela querer fazer isso na idade que tem e, além de
tudo, sozinha. Agora quando for querer viajar vai ter que levar a menina junto
ou arranjar alguém para ficar com ela. E eu bem sei que sua tia tem lá os
encontros secretos dela. Agora não sei como é que vai fazer com isso. Mas,
enfim, ela sabe da vida dela. Vai ver sempre quis ser mãe mas nunca teve como.
Vai entender.
Pois eu agora dei para pensar como seria ser
avó. Dá pra acreditar nisso? Eu já sabia que não havia sido uma boa mãe para
você, mas seu livro me mostrou isso de forma ainda mais evidente. Mas vó eu
acho que é mais fácil, você não acha? Se bem que eu sei que nos veríamos muito
pouco e que você faria questão de que fosse assim. É justo. Que uma vida de
ausências para você tenha esse reflexo. Mas, penso que é bem provável que você
nem queira ter filhos, com medo de ser uma mãe como eu fui, ou como minha mãe,
antes disso, também foi. Difícil mesmo, quebrar esse círculo de não-amor. Mas,
claro, você é de outra geração. É bem provável que esteja fazendo terapia e
fale bem mal de mim para seu terapeuta. Haha, só imagino o que sai. Às vezes eu
penso como teria sido a minha vida se eu própria tivesse me cuidado, se tivesse
levado a sério minha saúde mental. Mas eram outros dias. Admitir que você fazia
análise era o mesmo que dizer que você era louco. Imagine só tomar remédios?
Algo impensável.
Bom, acho que vou parar de escrever porque já
estou com o braço cansado. Também, nem sei se você irá abrir essa carta. Tudo
bem. Não lhe culpo. Nem sei bem por que escrevi ela. Acho que talvez apenas
para mostrar para você que eu também escrevo e que você talvez possa ter
herdado isso de mim. Ou, quem sabe, para dizer que li o seu livro e que estou
ciente de como você se sentiu. Poderia dizer que era para pedir desculpas, mas
isso seria uma mentira. Não consigo pedir desculpas genuínas por ser quem eu
era. Nunca soube ser diferente. Talvez sim eu possa lhe dizer que lamento não ter
tentado com mais força. Tentado lhe amar. Tentado lhe ver. Mas, para mim, o que
passou passou. De nada adianta ficar se lamentando. Então acho que o que eu
posso lhe dizer afinal, é que fico feliz que tenha conseguido realizar sua
vida, apesar de mim.
Um abraço com afeto (mesmo que tardio),
Sua Xará.
(baseado na leitura do livro Os abismos, de Pìlar Quintana, em conjunto com o Clube de Leitura do CLC UFPel. Apenas uma oportunidade de ouvir a voz da Cláudia mãe e do que ela teria para nos dizer).
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